A Uber iniciou o teste de uma nova e controversa ferramenta: a transmissão de vídeo ao vivo para corridas de adolescentes, permitindo que pais ou responsáveis monitorem a viagem em tempo real. A funcionalidade, que utiliza a câmera do smartphone do próprio motorista, está sendo implementada em nove cidades americanas, com planos de expansão, segundo reportagem do Business Insider.

A medida é uma resposta direta e calculada da Uber às persistentes crises de imagem e aos milhares de processos judiciais relacionados à segurança de passageiros, especialmente alegações de assédio. A leitura aqui é que, mais do que uma solução de segurança, o streaming de vídeo é uma ferramenta de gestão de percepção, desenhada para aplacar a ansiedade dos pais — que, no fim, são os clientes que pagam pela corrida.

A paz de espírito como serviço

O novo recurso da Uber transforma a tranquilidade em um produto. Ao oferecer um canal de vídeo para “checagens rápidas”, a empresa não previne um incidente, mas cria um efeito de dissuasão e transfere parte do ônus da vigilância para o próprio usuário. O vídeo não fica gravado, o que levanta questões sobre sua utilidade em uma investigação posterior, mas a simples existência da função pode ser suficiente para tranquilizar parte do mercado.

Este movimento expõe uma tensão inerente ao modelo de negócio: a necessidade de escalar a confiança entre estranhos. A solução, para uma empresa de tecnologia, é quase sempre mais tecnologia. O streaming é uma camada de software aplicada sobre um problema fundamentalmente humano, de confiança e segurança em um espaço físico confinado. A privacidade do adolescente e, notavelmente, do motorista — que tem seu veículo e sua imagem transmitidos — torna-se secundária.

O sintoma, não a cura

Analistas do setor apontam que funcionalidades como gravação de áudio e, agora, vídeo, atacam o sintoma, não a doença. A causa raiz dos problemas de segurança em aplicativos de transporte está na qualidade do recrutamento, treinamento e fiscalização dos motoristas, além da rapidez com que a plataforma responde a denúncias. Estas são soluções operacionalmente complexas e caras.

Uma camada de vídeo, por outro lado, é uma solução escalável e com forte apelo de marketing. Ela se alinha à estratégia da Uber de se posicionar como uma alternativa de mobilidade para uma geração de jovens que, segundo o CEO Dara Khosrowshahi, está tirando menos carteiras de motorista. O paralelo no Brasil é claro, onde a segurança é o principal campo de batalha entre os aplicativos, com concorrentes também apostando em câmeras e monitoramento.

No final, a nova ferramenta da Uber pode até reduzir a ansiedade dos pais, mas não elimina o risco. Ela representa a abordagem da economia de plataforma para problemas complexos: uma solução tecnológica que é mais sobre mitigar a percepção do risco do que erradicar sua fonte.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider