O Pátria Investimentos está testando uma nova abordagem em sua tese climática com o Reforest Fund, saindo do foco inicial em carbono para apostar na produção de abacate. Nas colinas de Águas de Santa Bárbara, no interior de São Paulo, a gestora investirá cerca de R$ 100 milhões para cultivar a fruta — pouco familiar ao consumidor brasileiro, mas com forte demanda internacional. O projeto busca integrar produção agrícola, restauração ambiental e geração de créditos de carbono, demonstrando uma estratégia multifacetada para o mercado de capital natural.
Adquirindo duas fazendas que totalizam mil hectares, o Pátria firmou parceria com a Jaguacy, um dos maiores produtores e exportadores brasileiros de abacate, para gerenciar a operação. O Brasil produz pouco mais de 60 mil toneladas da variedade Hass por ano, com a maior parte destinada à exportação. A iniciativa visa capitalizar o potencial de crescimento do mercado global de abacate, estimado em US$ 20 bilhões anuais, e posicionar o país entre os três maiores produtores mundiais.
O Fundo e a Diversificação de Capital
O Reforest Fund foi concebido para atrair um leque variado de investidores, desde aqueles focados em restauração e descarbonização até capital mais tradicional que demanda retorno financeiro previsível. Pedro Faria, sócio do Pátria, explica que a ideia era equilibrar a exposição ao mercado de carbono com soluções mais customizadas — e o abacate preencheu essa lacuna. O fundo nasceu com a meta de R$ 2 bilhões e já alcançou R$ 160 milhões, com negociações em andamento com investidores institucionais internacionais. A captação inclui recursos de agências de fomento, family offices e empresas como a Vale, que busca acessar créditos de carbono.
Arquitetura de Investimento e Capital Catalítico
Uma parte significativa da estratégia de captação do Pátria envolve o uso de capital catalítico — aquele que aceita maior risco, menor retorno ou prazos mais longos. Essa camada de proteção visa atrair investidores tradicionais, utilizando o capital catalítico para absorver perdas iniciais. O modelo permite que diferentes perfis encontrem uma porta de entrada alinhada aos seus objetivos: empresas com metas de descarbonização podem acessar créditos ambientais, enquanto investidores financeiros se beneficiam da receita agrícola e dos créditos gerados. A operação é descrita como um arranjo agroflorestal no nível da fazenda e um arranjo multifacetado de investidores no nível do fundo.
O Abacate como Pilar da Tese
O abacate se tornou o pilar dessa tese de investimento, com o Brasil apresentando condições favoráveis para ampliar sua participação no mercado global. Faria argumenta que, em termos de custo, competitividade e acesso a capital, não há barreiras para que o país se torne um dos principais produtores. Os mercados europeu e asiático são o foco principal para exportação, com o Japão entre os destinos que já importam a fruta brasileira. A parceria com a Jaguacy garante não apenas a operação e o processamento, mas também o acesso a canais de distribuição estabelecidos.
Produção Sustentável e Expansão Futura
A escolha de Águas de Santa Bárbara se deve às condições ideais de solo, altitude e disponibilidade hídrica, apesar de partes das áreas terem sofrido degradação por atividades anteriores. O cultivo será realizado em sistema agroflorestal, combinando fileiras de abacate com espécies nativas para proteção contra ventos. Cerca de 100 hectares serão plantados neste semestre, com a primeira colheita prevista para daqui a quatro anos. O projeto servirá de laboratório para futuras culturas, como café e cacau, e para a expansão do modelo a outros biomas. A produção de alimentos, diante das mudanças climáticas e da crescente demanda global, torna-se uma tese de investimento cada vez mais estratégica — focando em agricultura resiliente que aumenta a produção, restaura áreas e constrói cadeias alimentares mais seguras.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Brasil Journal Tech





