Patrik Frisk construiu sua carreira vendendo poliéster. Em gigantes como Under Armour, The North Face e Gore-Tex, ele supervisionou a produção de incontáveis peças sintéticas. Agora, como CEO da Reju, ele se dedica a uma espécie de acerto de contas: desenvolver uma tecnologia capaz de reciclar quimicamente esses mesmos tecidos descartados, transformando-os em novos materiais.

O movimento, detalhado em reportagem da Outside Online, ataca um dos maiores paradoxos da indústria da moda e de artigos esportivos. O poliéster é onipresente, com mais de 124 milhões de toneladas produzidas anualmente, mas menos de 1% do lixo têxtil é reciclado em novas fibras. A aposta da Reju é que a química avançada pode finalmente quebrar esse ciclo linear, que vai do petróleo ao aterro sanitário, criando uma circularidade real para o material.

A química contra o aterro

O grande obstáculo para a reciclagem têxtil sempre foi a mistura de fibras. Uma camiseta comum pode combinar poliéster com algodão, náilon ou elastano, tornando a separação mecânica inviável. É aqui que entra a inovação da Reju. Em sua planta piloto em Frankfurt, na Alemanha, a empresa utiliza um processo químico para isolar o poliéster das misturas, quebrando o polímero em seu monômero base. O resultado é um pó de poliéster puro, que pode ser transformado em pellets e, subsequentemente, em fios de alta qualidade.

Este método se diferencia fundamentalmente da reciclagem mecânica, que hoje se baseia principalmente em garrafas PET. Frisk, que no passado foi um defensor desse sistema, agora aponta sua principal limitação: a cada ciclo de reciclagem, o material perde qualidade. A proposta da Reju é manter a integridade molecular, permitindo que um tecido seja infinitamente reciclado no mesmo nível de performance. A questão não é transformar lixo em algo útil, mas sim em algo tão bom quanto o original.

A infraestrutura da circularidade

Fundada em 2023 com o apoio da gigante francesa de engenharia Technip Energies, a Reju já planeja sua expansão para os Estados Unidos. Uma nova planta de "regeneração" em Rochester, Nova York, prevista para 2029, terá a meta de processar o equivalente a 300 milhões de peças de vestuário por ano. Para garantir o suprimento de matéria-prima, a empresa firmou parcerias com a Goodwill e a Waste Management, criando um funil para capturar o resíduo têxtil pós-consumo antes que ele chegue aos aterros.

O processo, admite Frisk, é caro. O argumento, no entanto, é que a indústria já paga para reciclar garrafas plásticas em um sistema de qualidade inferior. A Reju aposta que as marcas estarão dispostas a pagar um prêmio por uma solução genuinamente circular, que lhes permita fechar o ciclo de seus próprios produtos. O objetivo final é que as marcas comprem o material regenerado da Reju para fabricar novas peças, criando uma cadeia de valor de fato fechada.

O poliéster é apenas o ponto de partida. O sucesso da empreitada, contudo, não depende apenas da validação da tecnologia, mas da construção de uma complexa e custosa infraestrutura de logística reversa. O maior desafio será convencer uma indústria, acostumada a externalizar o custo ambiental de seus produtos, a finalmente pagar a conta para limpar sua própria sujeira.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Outside Online