A União de Campesinos de Castilla y León (UCCL) lançou um chamado aos produtores de leite de vacuno para que exijam uma revisão dos contratos que serão negociados no início de outubro. O objetivo é forçar um aumento nos preços que permita cobrir os crescentes custos de produção, que se tornaram insustentáveis para o setor. A organização agraria baseia sua exigência na legislação espanhola, especificamente no Real Decreto 95/2019, que obriga as indústrias a reverem os preços se os produtores receberem valores abaixo de seus custos por um período contínuo de três meses.

Contexto de Custos e Competitividade

A UCCL denuncia que o cenário atual é agravado pelo notável aumento nos insumos energéticos. O gasóleo, essencial para as operações agrícolas, teve um encarecimento de 40% desde abril, enquanto o custo da eletricidade subiu 20% no último ano. Soma-se a isso o impacto severo da seca, que elevou o preço da alimentação animal. Os rações registraram aumentos de quase 9%, e itens como alfafa e palha tiveram valorização de 24% e 83%, respectivamente, em apenas um ano. A organização critica ainda que os custos produtivos na Espanha são superiores aos de outros países europeus, em parte devido a um clima mais árido que encarece forragens e matérias-primas.

Concentração e Desafios Estruturais

Essa conjuntura econômica desfavorável já provocou uma redução significativa no número de explorações pecuárias em Castilla y León. Entre 2009 e 2020, o número de fazendas diminuiu 29%, caindo de 31.438 para 22.326. Paradoxalmente, o rebanho total aumentou 7,4% no mesmo período, o que indica uma forte concentração de animais por exploração. Essa tendência, além de pressionar os produtores remanescentes, levanta questões sobre a sustentabilidade a longo prazo e a resiliência do setor diante de choques externos.

O Papel da Indústria e da Administração

A UCCL ressalta que não é aceitável um aumento de cotações no mercado europeu sem um ajuste correspondente no mercado espanhol. Algumas centrais leiteiras já anunciaram aumentos de dois a três cêntimos por litro, impulsionadas pela menor oferta. A organização é clara: se a indústria necessita de fornecimento de leite, deve pagar um preço justo. A UCCL alerta que permanecerá vigilante para denunciar irregularidades e garantir o cumprimento da Lei da Cadeia Alimentar. A entidade insiste que os produtores não podem continuar operando no prejuízo, especialmente com um bem de primeira necessidade como o leite, nem assumir sozinhos os aumentos de custos. A continuidade deste cenário, segundo a UCCL, condena o setor lácteo como um todo, e a Administração é apontada como cúmplice por não implementar soluções eficazes que garantam a rentabilidade das fazendas.

Perguntas em Aberto e o Futuro do Setor

A pressão sobre os custos de produção e a necessidade de renegociação de contratos levantam questões sobre o futuro da pecuária de leite na Espanha. A capacidade da UCCL em mobilizar os produtores e a resposta das indústrias serão cruciais nos próximos meses. Será que as negociações garantirão preços justos, ou a concentração de rebanhos e a saída de pequenos produtores se intensificarão? A falta de uma política agrícola robusta e adaptada às realidades climáticas e de mercado pode comprometer a soberania alimentar e a viabilidade econômica de um setor vital.

A situação expõe a fragilidade da cadeia produtiva de alimentos diante de choques externos e a urgência de modelos de negócio mais resilientes e justos para todos os elos. A demanda por um preço que cubra os custos de produção é um reflexo da luta pela sobrevivência em um mercado cada vez mais volátil. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España