O Departamento de Defesa dos Estados Unidos planeja um investimento substancial de US$ 30,3 milhões ao longo dos próximos cinco anos para o desenvolvimento de uma nova geração de detectores de mentiras. O programa, batizado de Polygraph+ ou Polygraph Next, foca na integração de algoritmos de Inteligência Artificial (IA) e aprendizado de máquina com técnicas de “sensoriamento à distância”. Esta última capacidade permitiria a medição de sinais fisiológicos sem a necessidade de conectar dispositivos ao corpo do indivíduo, buscando modernizar as tecnologias federais de polígrafo e avaliação de credibilidade para aumentar sua precisão e confiabilidade, segundo detalhes de uma solicitação orçamentária.

A iniciativa surge em um contexto de alta pressão dentro do Pentágono, que tem intensificado o uso de polígrafos na busca por fontes de vazamentos de informações para a imprensa. Relatos indicam que dezenas de oficiais já foram submetidos a esses testes após notícias sobre a redução de estoques de armas americanas. A Defense Counterintelligence and Security Agency (DCSA) será a responsável pela condução do Polygraph+, com o objetivo de avaliar candidatos a vagas e identificar ameaças internas. Embora os detalhes técnicos específicos permaneçam incertos, iniciativas anteriores do Pentágono, como as da Defense Innovation Unit (DIU), já exploraram protótipos de empresas como a Presage Technologies e a Altec Research, que utilizam câmeras para medir frequência cardíaca e respiratória, e sensores para monitorar movimentos da cabeça e atividade da pele.

O Legado Questionável do Polígrafo

A tecnologia de detecção de mentiras, em sua forma tradicional, pouco mudou desde sua invenção na década de 1920. Os polígrafos atuais baseiam-se em medições de pressão arterial, pulso, respiração e transpiração, interpretando variações fisiológicas em resposta a perguntas de referência e perguntas-alvo. Apesar de o governo federal realizar dezenas de milhares desses testes anualmente para triagem de funcionários, sua confiabilidade tem sido persistentemente questionada. Relatórios do Office of Technology Assessment do Congresso em 1983 e do National Research Council em 2003 apontaram a escassez de evidências robustas que sustentassem seu uso, classificando a eficácia como “fraca, na melhor das hipóteses”.

O problema fundamental reside na própria natureza da detecção de mentiras. Estudos sugerem que a capacidade humana de identificar uma mentira, mesmo sem auxílio técnico, não supera significativamente a chance (aproximadamente 50%). Embora a American Polygraph Association cite uma precisão entre 80% e 94%, um relatório do NRC de 2003 alertou que, em uma escala tão vasta quanto a do Departamento de Defesa – que emprega 2,8 milhões de pessoas –, um teste com essa margem de erro poderia levar à acusação indevida de dezenas de milhares de indivíduos.

IA: Promessa ou Amplificação de Falhas?

A introdução da IA no Polygraph+ promete analisar padrões complexos nos dados fisiológicos que escapam à percepção humana. A ideia é que algoritmos avançados possam identificar sinais sutis de estresse, carga cognitiva ou esforços conscientes para dissimular, combinando diversas medições em uma pontuação multimodal mais robusta. Essa abordagem “multimodal” é vista como um avanço potencial, pois busca abordar os três fenômenos subjacentes que a detecção de mentiras tenta capturar: estresse fisiológico, carga cognitiva e a tentativa ativa de ocultar a verdade. Projetos anteriores, como o Silent Talker e o AVATAR, já tentaram integrar análise de vídeo, rastreamento ocular e detecção de movimentos corporais, mas sem sucesso duradouro fora do ambiente laboratorial.

No entanto, a integração da IA com a tecnologia de polígrafo não está isenta de críticas severas. Especialistas como Kyri Kotsoglou argumentam que essa combinação representa “o pior dos dois mundos”. Ao adicionar uma camada de análise algorítmica a uma ferramenta já questionável em sua validade científica, a IA pode introduzir uma falsa sensação de objetividade e precisão. A dificuldade intrínseca em vincular com confiabilidade padrões fisiológicos a uma mentira específica, dada a ausência de um “sinal inequívoco de mentira”, permanece um obstáculo intransponível. A subjetividade inerente à interpretação dos testes e a possibilidade de contramedidas por parte dos indivíduos testados continuam a minar a confiabilidade da tecnologia.

Implicações para Privacidade e Confiança

A busca do Pentágono por uma tecnologia de detecção de mentiras mais sofisticada levanta preocupações significativas sobre privacidade e o potencial de abuso. A capacidade de sensoriamento à distância, em particular, abre a porta para a vigilância contínua e a coleta de dados biométricos sem consentimento explícito ou conhecimento do indivíduo. A aplicação dessa tecnologia em larga escala para avaliação de candidatos e detecção de ameaças internas pode criar um ambiente de desconfiança generalizada, onde a presunção de inocência é substituída por uma suspeita algorítmica constante.

Marion Oswald, professora de Direito, expressa o temor de que essas novas tecnologias, assim como o polígrafo tradicional, sejam utilizadas mais como ferramentas de coerção psicológica e dissuasão do que como instrumentos científicos confiáveis. Ela sugere que a iniciativa pode ser uma resposta direta à preocupação governamental com vazamentos e lealdade, funcionando como uma ameaça para induzir confissões, em vez de produzir informações válidas. A história mostra que, mesmo com avanços tecnológicos, a detecção de mentiras tem lutado para ir além de um efeito dissuasório, dependendo mais da crença popular em sua eficácia do que em sua comprovação científica.

A Busca por um "Nose de Pinóquio" Digital

O que permanece incerto é se a IA, por mais avançada que seja, conseguirá superar a limitação fundamental de que não existe um marcador biológico universal e inequívoco para a mentira. A tecnologia atual, e mesmo as propostas futuras, ainda buscam um “nariz de Pinóquio” digital que possa identificar com certeza absoluta quando alguém está a mentir. A dependência de sinais fisiológicos, que são influenciados por uma miríade de fatores como estresse, ansiedade, ou até mesmo esforço cognitivo para lembrar de algo, torna a atribuição direta à desonestidade uma tarefa hercúlea.

Será crucial observar como o Pentágono abordará a validação científica e ética do Polygraph+. A história de iniciativas similares sugere cautela, pois muitas desapareceram discretamente após promessas iniciais. A questão central é se o investimento de US$ 30 milhões resultará em uma ferramenta genuinamente mais precisa e confiável, ou se apenas aprofundará a dependência de métodos de interrogatório questionáveis, com implicações potencialmente graves para os direitos individuais e a confiança pública.

A busca por uma detecção de mentiras infalível através da IA continua, mas os desafios científicos e éticos permanecem formidáveis. A eficácia real do Polygraph+ e seu impacto na privacidade e nos direitos dos indivíduos testados ainda são um campo aberto para análise e debate. A confiança na tecnologia dependerá não apenas de sua capacidade técnica, mas também de como ela será regulamentada e aplicada no contexto da segurança nacional.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · MIT Tech Review Brasil