O Pentágono está em uma corrida acelerada para desenvolver sangue artificial que possa ser transportado por soldados em suas mochilas e ter uma vida útil de anos, eliminando a necessidade de refrigeração. A Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa dos EUA (DARPA) alocou US$ 73 milhões para este ambicioso projeto, com o objetivo de ter plasma, plaquetas e glóbulos vermelhos liofilizados prontos para uso em cenários de combate em pouco mais de dois anos. A iniciativa visa combater as hemorragias, que são a principal causa de mortes evitáveis em combate e em emergências médicas globais, como parto.

Estudos recentes destacam a urgência. Uma análise de 2025 com mais de um milhão de pacientes de trauma nos EUA revelou que apenas uma pequena fração recebeu transfusões antes de chegar ao hospital. O Colégio Americano de Cirurgiões estima que a escassez de sangue cause cerca de 10.000 mortes evitáveis anualmente no país. Para combatentes feridos, o tempo é crucial: pesquisas sugerem que há cerca de 36 minutos para iniciar uma transfusão após um ferimento grave para garantir a sobrevivência. O tenente-comandante Robert Murray, que lidera o programa na DARPA, enfatiza que, para a maioria das hemorragias consideradas sobrevivíveis, a intervenção rápida com sangue é quase garantida para salvar vidas, mas a probabilidade de sobrevivência cai drasticamente após esse período.

A Logística e a Fragilidade do Sangue Natural

A logística do sangue biológico é um desafio logístico e de conservação. O sangue humano, quando refrigerado, dura cerca de 35 dias. As plaquetas, essenciais para a coagulação, têm uma vida útil ainda menor, de uma semana ou menos em temperatura ambiente. O plasma e os glóbulos vermelhos, embora possam ser congelados, degradam-se rapidamente após o descongelamento. A necessidade de manter cadeias de frio rigorosas em ambientes de campo de batalha ou em regiões remotas torna o suprimento de sangue um gargalo crítico. Murray relata experiências em que um único banco de sangue servia a milhares de militares em áreas de operações complexas, destacando a vulnerabilidade de depender de um único ponto de suprimento, especialmente em um cenário de defesa nacional que agora foca em conflitos com potências como China e Rússia, e não apenas em terrorismo.

O custo e o risco associados às "blood runs" — missões aéreas para transportar sangue — já foram evidenciados no passado. Um incidente em 2007, onde um helicóptero foi derrubado durante uma dessas missões no Iraque, resultando na morte de sete tripulantes, ilustra a periculosidade da operação. A Estratégia de Defesa Nacional de 2018 reforçou a necessidade de reduzir essa dependência logística, impulsionando a busca por soluções mais resilientes e autônomas.

Desafios na Criação de Componentes Sanguíneos Artificiais

A recriação dos componentes sanguíneos apresenta diferentes níveis de complexidade. O plasma é o mais acessível; a tecnologia de liofilização, que remove a água após o congelamento para permitir a reconstituição posterior, existe desde os anos 1930 e foi utilizada na Segunda Guerra Mundial. Os EUA retomaram sua produção em larga escala a partir de 2010, e a FDA autorizou recentemente o uso emergencial de plasma liofilizado para o exército e civis. As plaquetas, contudo, têm sido mais difíceis de replicar. Apesar de décadas de pesquisa, os avanços em prolongar sua vida útil são limitados. Empresas como a Cellphire trabalham com plaquetas humanas liofilizadas, mas a escalabilidade e a dependência de doadores permanecem como obstáculos.

Os glóbulos vermelhos, responsáveis pelo transporte de oxigênio, são os mais desafiadores. A hemoglobina, quando separada de sua membrana celular, degrada-se rapidamente, pode causar danos renais e contrair vasos sanguíneos ao capturar óxido nítrico. Iniciativas anteriores, como a da DARPA em 2008, não conseguiram reduzir o custo por unidade para níveis viáveis e ainda exigiam refrigeração. A dificuldade em cultivar glóbulos vermelhos em laboratório e manter sua funcionalidade por longos períodos sem comprometer a segurança e a eficácia é um gargalo persistente.

Avanços e Inovações em Desenvolvimento

Atualmente, diversas empresas estão na vanguarda do desenvolvimento de substitutos sanguíneos. A KaloCyte, por exemplo, utiliza hemoglobina de sangue de doador prestes a expirar, encapsulada em nanopartículas lipídicas. Seu produto, ErythroMer, é liofilizado e promete durar dois anos em temperatura ambiente, com resultados promissores em estudos com animais. A SynthoPlate, desenvolvida por Anirban Sen Gupta, propõe uma plaqueta sintética com peptídeos que mimetizam a função de coagulação, com validade superior a um ano em temperatura ambiente e mais de três meses a 50°C. A DARPA financia outras cinco empresas, além de apoiar cientistas japoneses que já testam hemoglobina encapsulada em humanos.

Esses avanços, embora promissores, ainda enfrentam o ceticismo de alguns especialistas. John Holcomb, da Universidade de Alabama em Birmingham, questiona se esses substitutos conseguirão replicar todas as funções complexas do sangue completo. Ele argumenta que, em casos de perda massiva de volume sanguíneo, a sobrevivência pode depender não apenas da reposição de volume, mas também das outras funções vitais desempenhadas pelas células e componentes naturais do sangue, sugerindo que a necessidade de substitutos sintéticos pode ser mais limitada do que se supõe.

A corrida do Pentágono por sangue sintético reflete uma necessidade militar crescente por soluções logísticas robustas e eficazes. A capacidade de fornecer componentes sanguíneos estáveis e prontos para uso no campo de batalha pode revolucionar o tratamento de traumas e reduzir drasticamente as mortes evitáveis. No entanto, os desafios científicos e técnicos para replicar a complexidade e a multifuncionalidade do sangue humano são imensos.

O sucesso do programa da DARPA dependerá não apenas da capacidade de superar barreiras técnicas, mas também de demonstrar a segurança e a eficácia em humanos, especialmente em cenários de alto estresse. A colaboração entre a indústria, a academia e o governo será fundamental para transformar essa visão em realidade, com implicações que podem ir além do campo militar, beneficiando também o atendimento de emergências civis e a medicina em regiões com infraestrutura limitada.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · El Confidencial — Tech