A era de excessos da Evergrande, a gigante imobiliária que se tornou o epicentro da crise no setor na China, chegou a um desfecho dramático. Seu fundador, Xu Jiayin, foi condenado à prisão perpétua por um tribunal em Shenzhen. A sentença inclui a revogação de seus direitos políticos e o confisco de todos os seus bens pessoais. A empresa, por sua vez, foi multada em 15,82 bilhões de yuans, o equivalente a cerca de R$ 12,2 bilhões.
A condenação por crimes como “fraude financeira em larga escala” e suborno encerra a trajetória de um dos empresários mais emblemáticos do boom chinês. Mais do que um caso criminal isolado, a decisão é um ato político calculado. Pequim sinaliza com força que o modelo de crescimento baseado em endividamento massivo e especulação, que por décadas alimentou a urbanização do país, não será mais tolerado.
O recado de Pequim
A sentença de Xu Jiayin deve ser lida no contexto mais amplo da campanha de “prosperidade comum” do presidente Xi Jinping. O objetivo é reprimir o que o Partido Comunista considera os excessos do capitalismo e reafirmar o controle estatal sobre a economia. A Evergrande, com um passivo que chegou a superar os US$ 300 bilhões, representava um risco sistêmico que Pequim decidiu neutralizar de forma exemplar. A prisão perpétua de seu fundador serve como um aviso severo para outros magnatas e empresas que operam em zonas cinzentas da regulação.
Segundo o tribunal, entre 2016 e 2021, Xu e a Evergrande inflaram ativos e ocultaram passivos de forma contínua, enganando investidores e credores. A punição não se limitou ao topo: outros cinco altos executivos do grupo receberam penas de seis a 18 anos de prisão. A mensagem é clara: a responsabilidade pela implosão do setor imobiliário será individualizada e punida com o máximo rigor da lei, um claro distanciamento da era em que certos empresários pareciam intocáveis.
O fim do jogo para os titãs
A queda de Xu Jiayin espelha o destino de outras figuras proeminentes do setor de tecnologia, como Jack Ma, que também sentiram o peso da mão regulatória do Estado. A diferença, aqui, é a severidade da pena, que reflete a dimensão do estrago causado pela bolha imobiliária na economia e na confiança da população. O setor, que já representou quase um terço do PIB chinês, agora passa por uma reestruturação forçada, com o governo ditando os termos do jogo.
Para o ecossistema de negócios na China, o caso Evergrande consolida uma nova realidade. A busca por crescimento a qualquer custo deu lugar a um ambiente onde a estabilidade política e social é a prioridade máxima. A autonomia dos titãs corporativos foi substituída pela primazia do Partido.
A crise imobiliária chinesa está longe de terminar, mas a condenação de Xu Jiayin marca o fim de um capítulo. O modelo que o tornou bilionário foi oficialmente enterrado. A questão que permanece é qual será a arquitetura do novo sistema que Pequim pretende construir sobre os escombros — e quem terá permissão para operá-lo.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





