O cinza predominante das ruas londrinas ganhou um contraponto vibrante com a Cloud House, projeto autoral do arquiteto Peter Morris em Gospel Oak. Com paredes em um ousado tom de rosa chiclete, arcos imponentes e detalhes em turquesa, a residência autodesenhada por Morris e sua parceira, a produtora Emily Kennedy, é uma ode à cor e à alegria, inspirada por uma viagem a Miami e pela arquitetura excêntrica local.

O projeto, que combina duas residências em um só terreno, foi concebido com o objetivo explícito de trazer um "momento de alegria" para quem passa pela rua. Morris, que vive no local desde 2016, afirma que o uso de cor e padrão na arquitetura, muitas vezes descartado como frívolo, é capaz de gerar uma resposta emocional distinta daquela provocada pelo modernismo elegante. A casa, que ocupa o local de uma antiga residência vitoriana, dialoga com a vizinhança, incorporando elementos das formas curvas da escola local e da icônica igreja St Martin's, descrita como "a mais louca das igrejas vitorianas de Londres".

Uma explosão de cor no coração de Londres

A arquitetura da Cloud House é um convite à ousadia. As paredes em rosa marshmallow, os arcos amplos e os detalhes em turquesa são influências diretas de uma viagem do casal a Miami, onde a arquitetura art déco e a paleta de cores vibrantes deixaram uma marca profunda. "Em certo sentido, este edifício é uma carta de amor arquitetônica à minha esposa, então pareceu apropriado ter um pouco desse espírito de lua de mel", explicou Morris. A estrutura principal, composta por aço e alvenaria, é revestida por arcos decorativos de poliestireno, protegidos por uma camada impermeável e um acabamento texturizado que mimetiza o reboco rosa vibrante.

O projeto, que foi destaque no programa de TV Grand Designs, tem gerado reações polarizadas. "Eu sei que nem todo mundo vai amar a Cloud House tanto quanto nós – as reações nas redes sociais têm sido ou esmagadoramente positivas ou esmagadoramente negativas, sem nada entre elas", refletiu Morris. Essa divisão de opiniões, no entanto, não diminui a intenção do arquiteto de explorar a "fairytale flamboyance" — um termo que evoca um senso de conto de fadas e extravagância — nas paisagens urbanas, desafiando a monotonia e incentivando a diversidade arquitetônica.

Diálogo com o entorno e a história

A influência da vizinhança é palpável na Cloud House. Morris buscou inspiração nas formas extravagantes do edifício escolar adjacente, que ostenta uma fachada reminiscente de um castelo medieval, e na igreja St Martin's, com seu interior ricamente decorado e um teto de capela com cores vivas. A casa de Morris, menor (133 m²), apresenta um layout aberto no térreo com sala de estar, cozinha e estúdio. Os dois andares superiores abrigam quartos e banheiros, culminando em um terraço com banheira externa. A residência vizinha, ligeiramente maior (165 m²), adota uma disposição invertida, com espaços sociais no último andar e terraços generosos.

Enquanto os interiores da casa de Morris refletem a audácia do exterior com pisos de epóxi turquesa, banheiros coloridos e uma cozinha em listras verde-esmeralda, os espaços internos da residência vizinha foram entregues em branco, prontos para personalização. Essa abordagem dual — uma expressão artística completa de um lado e uma tela em branco do outro — demonstra a flexibilidade do projeto e a capacidade de acomodar diferentes visões.

Ousadia e a busca pela alegria

A ousadia estética da Cloud House, embora divida opiniões, cumpre seu propósito de injetar vitalidade e emoção no espaço urbano. Morris argumenta que a arquitetura não deve se limitar à elegância minimalista, mas sim abraçar a variedade e a expressividade, especialmente quando o conselho local, como o Camden Council, demonstra abertura a propostas mais ousadas. A "fairytale flamboyance" é vista não como um mero capricho, mas como uma ferramenta para estimular o bem-estar e a percepção estética dos transeuntes.

A esperança de Morris é que o impacto visual de sua criação inspire outros a comissionar projetos que celebrem a cor e a alegria. Em um contexto onde a arquitetura muitas vezes se conforma a padrões previsíveis, a Cloud House se destaca como um farol de individualidade e otimismo, provando que edifícios podem, sim, ser portadores de felicidade e de uma narrativa visual cativante.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Dezeen