A Petrobras anunciou a retomada da produção de fertilizantes na Bahia, marcando um movimento estratégico para ampliar sua participação no mercado de insumos agrícolas. A expectativa da companhia é alcançar, até 2028, a marca de 35% de suprimento da demanda nacional por fertilizantes nitrogenados, um setor historicamente dependente de importações.

Segundo informações divulgadas pela empresa, a reativação da Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados da Bahia (Fafen-BA) exigiu um aporte de R$ 100 milhões. A unidade, que estava hibernada desde 2019 e chegou a ser arrendada para o setor privado, voltou a operar com capacidade de 1.300 toneladas de ureia por dia, atendendo culturas estratégicas como milho, cana-de-açúcar, café e algodão.

O retorno da estatal ao setor de insumos

A estratégia de reinserção da Petrobras no segmento de fertilizantes reflete uma mudança de diretriz corporativa sob a atual gestão. A empresa argumenta que a iniciativa privada não obteve sucesso na operação da planta baiana, o que motivou a retomada do controle estatal. A lógica por trás dessa decisão é a integração vertical, onde a Petrobras utiliza sua própria produção de gás natural para viabilizar o custo do insumo, tornando a operação mais competitiva.

O plano de expansão não se restringe à Bahia. A estatal projeta reabrir unidades em Sergipe e a Araucária Nitrogenados (ANSA), no Paraná, além de concluir a Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN3), em Três Lagoas (MS). A meta de fornecer 35% do mercado nacional é ambiciosa, dado que o Brasil, até pouco tempo atrás, importava a totalidade da ureia consumida no país, que gira em torno de 8 milhões de toneladas anuais.

Mecanismos de oferta e demanda no agronegócio

A reativação das fábricas é apresentada como uma resposta direta à lei da oferta e da demanda, diante de um mercado interno com alta procura. Ao aumentar a oferta doméstica, a Petrobras busca criar um colchão de segurança para o agronegócio brasileiro contra a volatilidade dos preços internacionais e eventuais gargalos nas cadeias de suprimento globais.

A viabilidade econômica dessas operações está atrelada à gestão do gás natural. A Petrobras tem investido em infraestrutura para reduzir o custo do insumo, essencial para a produção de nitrogenados. Esta sinergia entre a divisão de exploração e produção (E&P) e a indústria petroquímica é o pilar que sustenta a viabilidade financeira do projeto, conforme destacado pela administração da companhia.

Implicações para o ecossistema brasileiro

Para o setor de agronegócio, a presença da Petrobras como fornecedora local pode significar uma maior previsibilidade de custos. A redução da dependência externa é um tema recorrente na agenda de segurança alimentar e econômica do país, especialmente considerando a importância das commodities agrícolas para a balança comercial brasileira.

No entanto, a mudança levanta questões sobre a alocação de capital da estatal. Concorrentes e analistas de mercado observam atentamente se o foco em fertilizantes não desviará recursos ou atenção das atividades principais de exploração de petróleo e gás. A geração de empregos, estimada em milhares de postos diretos e indiretos, traz um componente de impacto socioeconômico relevante para as regiões onde as plantas estão instaladas.

Perspectivas e desafios operacionais

O sucesso da estratégia dependerá da execução eficiente dos planos de retomada e da estabilidade das operações nas quatro fábricas previstas. A capacidade de manter os custos de produção competitivos frente ao mercado global de fertilizantes, que é altamente volátil, permanece como um dos principais desafios para a Petrobras nos próximos anos.

O mercado acompanhará os resultados das intervenções no Recôncavo Baiano e o progresso das obras na UFN3 para avaliar se a meta de 2028 é factível. A evolução da demanda nacional e a política de preços da companhia serão fatores decisivos para determinar o impacto real da estatal na redução da dependência de importações.

A retomada da produção de fertilizantes pela Petrobras coloca a estatal em uma posição central no abastecimento do campo, redefinindo sua atuação no mercado interno. Resta observar como essa nova configuração afetará o equilíbrio de preços e a dinâmica competitiva do setor nos próximos anos.

Com reportagem de Bloomberg Línea

Source · Bloomberg Línea