A ideia de que as melhores inovações surgem em momentos de epifania, como em um banho ou durante uma caminhada, encontra um eco peculiar na trajetória de Diego San Jorge. Piloto comercial com mais de duas décadas de experiência em companhias aéreas latino-americanas, asiáticas e low-cost chinesas, San Jorge observou um padrão recorrente em treinamentos: a dificuldade em reter conhecimentos, mesmo após extensos períodos de estudo. "Me pasé años leyendo y repasando manuales, pero algunos conocimientos seguían sin retenerse", relembrou o empreendedor. Essa persistente falha na retenção de conhecimento, que o incomodava em sua própria carreira, o impulsionou a buscar uma solução.

Sua jornada investigativa o levou a conceitos fundamentais da psicologia cognitiva. A curva do esquecimento, descrita por Hermann Ebbinghaus, tornou-se um pilar central: o cérebro, ao aprender, seleciona o que reter a longo prazo com base na exposição ao conhecimento e degrada padrões não repetidos. Hugo Gisande, especialista em marketing e data mining e agora sócio global de San Jorge, reforça essa tese com dados alarmantes: "La curva del olvido, un experimento real, mostró que en apenas 48 horas olvidamos el 70% de lo que no usamos". A influência de Daniel Kahneman, com suas teorias sobre os sistemas de pensamento e a distinção entre o "eu que experimenta" e o "eu que lembra", também moldou a abordagem da dupla, evidenciando que a retenção de conhecimento não se equipara à lembrança de uma experiência.

O Mecanismo da Memória Digital

Com esses pilares teóricos em mãos, San Jorge concebeu a TestU, uma plataforma de aprendizado que integra inteligência artificial e o conceito de assessment for learning. Em vez de avaliações tradicionais, o sistema funciona como um ciclo contínuo de capacitação e avaliação adaptativa. O cerne da tecnologia reside na capacidade de prever a curva de esquecimento individual de cada usuário. Ao identificar quais conhecimentos específicos estão se degradando na memória de cada pessoa, a plataforma intervém com "microestímulos" — pequenas doses de conteúdo e exercícios — projetados para reforçar o aprendizado. O objetivo não é pontuar o desempenho, mas sim manter o conhecimento ativo, daí o nome "TestU", que remete a testar a própria memória. A plataforma é complementada por um tutor de IA que acompanha o usuário, mede seu progresso e antecipa a necessidade de revisões, garantindo que o aprendizado se mantenha relevante e duradouro.

Da Aviação à Educação Superior Chilena

Embora a inspiração inicial tenha vindo da aviação, o primeiro grande sucesso da TestU ocorreu no setor educacional chileno. A plataforma foi adaptada para auxiliar estudantes na preparação para a Prueba de Acceso a la Educación Superior (PAES), um exame padronizado de admissão universitária. Através de uma colaboração com a Santillana, que forneceu o conteúdo, a TestU ofereceu sua tecnologia para personalizar o estudo. Os resultados foram notáveis: os estudantes apresentaram um aumento de 30% em suas pontuações na PAES e uma redução de 42% na taxa de esquecimento, indicando uma retenção de conteúdo significativamente maior, mesmo semanas após o estudo. Além disso, a plataforma contribuiu para uma diminuição de 15% no abandono escolar e um aumento de 25% nas horas efetivas de aprendizado, com um incremento de 30% no bem-estar percebido pelos alunos. O reconhecimento dessa eficácia se estendeu ao ser incluída na versão latino-americana do livro "Marketing 6.0" de Philip Kotler, que destaca o uso de novas tecnologias na educação.

Expansão e Visão AI Native

O sucesso na educação impulsionou a expansão da TestU para o setor corporativo, com aplicações em empresas de energia, serviços e mineração. Nesses ambientes, a plataforma alcançou uma retenção de conhecimento média de 98%, com relatos de redução de até 90% em acidentes e incidentes em uma empresa geradora de energia. O projeto evoluiu para a TestU Learn, uma plataforma focada em organizações que buscam desenvolver, atualizar e transformar as capacidades de suas equipes, especialmente em um cenário de crescente adoção da IA. Essa iniciativa se integrou à GenAI Labs, uma aceleradora de implementação de IA com sede nos Estados Unidos, fundada por San Jorge e Gisande, com o objetivo de guiar empresas na transição para modelos "AI native". A metodologia da GenAI Labs visa implementar esses projetos em cerca de 14 semanas, focando em duas frentes: skilling, para reforçar conhecimentos e manter habilidades ativas, e reskilling, para requalificar colaboradores cujos papéis são transformados pela IA. Atualmente, a TestU opera no Chile e no Peru, com planos de expansão para a Argentina, onde Gisande cofundou a TestU Labs com María Laura Caruso. A visão é clara: empresas precisam ir além da simples adoção de ferramentas de IA, tornando-se organizações verdadeiramente "AI native", capazes de integrar a inteligência artificial em sua cultura, processos e operações. O conceito fundamental permanece: estímulos curtos e focados são mais eficazes do que longas horas de estudo, um princípio que a TestU aplica para maximizar o potencial humano em um mundo cada vez mais digital.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · La Nación — Tecnología