A discussão sobre equidade de gênero no ambiente corporativo tem sido, há décadas, dominada pela metáfora do teto de vidro. O foco recai sobre a presença feminina em conselhos de administração, a trajetória de CEOs e as armadilhas de ascensão durante crises. Contudo, para milhões de mulheres acima dos 45 anos, o desafio real não é chegar ao topo, mas escapar do chamado piso pegajoso — uma armadilha estrutural que as concentra em funções de baixa remuneração e mobilidade limitada, setores dos quais a economia depende, mas que se recusa a valorizar adequadamente.

Segundo reportagem da Fast Company, a fragilidade financeira se agrava conforme a idade avança. Enquanto a experiência profissional deveria, em teoria, elevar o valor de mercado de um trabalhador, esse retorno é significativamente menor para mulheres. Estudos indicam que desigualdades de gênero se ampliam drasticamente após os 45 anos, criando uma vulnerabilidade cumulativa que atinge o auge exatamente quando as trabalhadoras deveriam estar consolidando sua estabilidade econômica.

A armadilha da experiência desvalorizada

O fenômeno do piso pegajoso não é um evento isolado, mas um sistema de baixa mobilidade ao longo da vida. Mulheres sem diploma universitário, com maior incidência entre populações negras e hispânicas, permanecem presas em áreas de 'trabalho de cuidado': assistência domiciliar, varejo, hospitalidade e apoio administrativo. Nestes setores, a senioridade não traz progressão salarial, mas sim desgaste físico, jornadas instáveis e risco elevado de burnout.

Em contraste com carreiras corporativas que recompensam o tempo de serviço, o trabalho de serviço frequentemente pune a experiência. Uma profissional pode dedicar décadas ao suporte em saúde e ainda assim receber remuneração próxima ao nível de entrada. A estrutura econômica falha em reconhecer que a produtividade nesses setores é essencial para o funcionamento da sociedade, tratando-a como um custo a ser minimizado em vez de um investimento em infraestrutura social.

O custo invisível do cuidado contínuo

O motor que mantém o piso pegajoso é a sobrecarga de trabalho não remunerado. Após a penalidade da maternidade, muitas mulheres entram na chamada geração sanduíche, cuidando de filhos adultos, pais idosos e netos. A figura da avó, frequentemente ignorada em políticas corporativas, torna-se um amortecedor silencioso da vida familiar, resultando em redução de carga horária ou recusa de promoções para garantir o suporte necessário que o Estado ou o mercado não suprem.

Essa dinâmica força a migração para empregos de meio período, que representam cerca de 60% da força de trabalho feminina em tempo parcial nos Estados Unidos. A escolha, muitas vezes imposta pela falta de infraestrutura de cuidado, gera uma penalidade tripla: renda imediata reduzida, estagnação de carreira e, consequentemente, uma aposentadoria insuficiente, perpetuando o ciclo de dependência econômica na terceira idade.

Tensões geracionais e o viés de idade

A intersecção entre sexismo e etarismo cria um cenário de dupla penalidade para as mulheres. Enquanto homens mais velhos são frequentemente percebidos como figuras de autoridade e experiência, mulheres na mesma faixa etária enfrentam um padrão duplo de envelhecimento. Essa percepção enviesada mina a confiança e as oportunidades de reinserção ou crescimento, mesmo em profissionais altamente qualificadas que buscam transições de carreira ou posições de maior responsabilidade.

Para o ecossistema brasileiro, a reflexão é urgente. Com o envelhecimento populacional acelerado, a dependência de serviços de cuidado tende a crescer, colocando em risco a segurança financeira de uma geração de mulheres que sustenta a base da pirâmide produtiva. A falta de políticas públicas e corporativas que enderecem a economia do cuidado pode resultar em um passivo social de grandes proporções.

Incertezas sobre o futuro do trabalho

Permanece em aberto como as empresas reagirão à crescente necessidade de flexibilidade sem penalizar a trajetória salarial. O desafio é transformar setores de cuidado em carreiras sustentáveis, onde a experiência seja, de fato, um ativo. Observar a evolução de benefícios voltados a cuidadores e a valorização do trabalho de base será fundamental para entender se o mercado conseguirá romper esse ciclo.

O debate exige que a agenda de diversidade ultrapasse as salas de diretoria e alcance os setores onde a desigualdade é mais profunda. A questão que permanece é se o sistema econômico está disposto a atribuir o devido valor financeiro a um trabalho que, embora essencial, continua sendo tratado como um subproduto da estrutura social. Com reportagem de Fast Company

Source · Fast Company