O ex-presidente da companhia aérea espanhola Plus Ultra, Julio Martínez Sola, ratificou em depoimento à Justiça que a empresa destinou 1% de seu resgate governamental de € 53 milhões para garantir a suposta mediação do ex-primeiro-ministro do país, José Luis Rodríguez Zapatero. O pagamento, que totaliza cerca de € 530 mil, teria sido feito a um associado de Zapatero, embora o executivo tenha admitido não saber detalhar quais gestões foram de fato realizadas.

A confissão, feita durante a investigação do 'caso Plus Ultra' na Audiência Nacional da Espanha, lança luz sobre as pressões e as zonas cinzentas que cercam os pacotes de ajuda estatal. A tese que emerge é a de um ato de desespero corporativo que se converteu em um potencial crime de tráfico de influência. O caso expõe a tênue fronteira entre lobby legítimo e corrupção quando fundos públicos e figuras políticas de alto escalão estão em jogo, um dilema que ecoa em diversos ecossistemas de negócios, inclusive o brasileiro.

A anatomia de uma consultoria de fachada

O mecanismo para o pagamento, segundo o depoimento, seguiu um roteiro clássico de dissimulação. Os € 530 mil não foram transferidos diretamente a Zapatero, mas a empresas ligadas a seu sócio, Julio Martínez Martínez. As faturas, emitidas por serviços como "Elaboração de informe", eram, nas palavras do próprio ex-presidente da Plus Ultra, inúteis. Os relatórios entregues eram irrelevantes, servindo apenas como uma fachada para justificar as transferências.

A defesa dos ex-executivos, que renunciaram a seus cargos logo após enviarem seus depoimentos por escrito à Justiça, chegou a classificar a cobrança como uma "mordida" — o termo em espanhol para propina ou comissão indevida. Eles afirmam ter agido por uma "medida desesperada" para salvar a companhia da falência iminente durante a paralisação do setor aéreo na pandemia. A leitura aqui é que a percepção de influência de Zapatero era tão forte que a empresa sentiu-se compelida a pagar, mesmo sem garantias ou clareza sobre o serviço prestado. O episódio ilustra como a reputação de acesso pode ser, por si só, um ativo valioso e perigoso.

O telefonema oculto e as implicações

Um dos pontos mais sensíveis do depoimento é a confirmação de uma ligação de Zapatero, feita de um número oculto, um ano antes da concessão do resgate. Na conversa de aproximadamente dez minutos, o ex-premiê teria se oferecido para ajudar e indicado seu "homem de confiança", Martínez Martínez, como o contato dali em diante. Embora Zapatero negue ter exercido qualquer influência, o telefonema estabeleceu a ponte que levaria aos pagamentos.

O caso Plus Ultra transcende a política espanhola e serve como um estudo de caso sobre a vulnerabilidade de programas de resgate financeiro. Em momentos de crise, a urgência para injetar liquidez na economia pode afrouxar mecanismos de controle, abrindo brechas para o tráfico de influência. A estrutura de pagamentos por consultorias de fachada para obter acesso a benefícios estatais ecoa dinâmicas já amplamente investigadas no Brasil. A questão central, agora, é provar a causalidade: o resgate foi concedido por causa da suposta intervenção de Zapatero ou teria ocorrido de qualquer forma?

A investigação avança, agora munida da confissão dos próprios executivos que autorizaram os pagamentos. A estratégia de colaboração pode mitigar suas penas, mas coloca em xeque a integridade do processo de alocação de ajuda pública. O desfecho do caso será um termômetro para a responsabilização de agentes políticos e corporativos que operam na nebulosa intersecção entre poder e dinheiro.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España