Cientistas do Instituto de Ciência e Tecnologia de Okinawa identificaram evidências de uma atividade solar extraordinariamente intensa no início do século XIII. O estudo cruza relatos históricos com análises biológicas, demonstrando que o Sol operava, segundo os pesquisadores, sob uma dinâmica de ciclos significativamente mais curtos e energéticos do que o padrão atual de 11 anos.

Segundo o levantamento, o fenômeno permitiu a observação de auroras em latitudes onde o fenômeno é fisicamente improvável. A pesquisa utiliza o diário 'Meigetsuki', do poeta japonês Fujiwara no Teika, como evidência histórica de eventos luminosos anômalos no céu de Kioto no início do século XIII, corroborando a tese de uma tempestade geomagnética severa naquele período.

A precisão dos registros históricos

A utilização de fontes literárias para a reconstrução climática e astronômica oferece uma camada de validação essencial quando instrumentos de medição modernos não existiam. O relato de Fujiwara no Teika, que descreveu 'luzes vermelhas' no norte de Kioto, serve como marcador temporal e geográfico para um evento de alta magnitude. A latitude de Kioto, situada muito ao sul dos polos magnéticos, torna a ocorrência de auroras visíveis um indicador claro de uma perturbação geomagnética de escala excepcional.

Além do relato japonês, registros de astrônomos chineses da mesma época reforçam a ocorrência do fenômeno. A convergência entre a literatura medieval e a observação astronômica sistemática da China permite aos pesquisadores triangular a magnitude da interação solar com a atmosfera terrestre durante o período medieval.

O papel do carbono-14 e dos anéis de árvores

Para validar as observações históricas, a equipe analisou os anéis de crescimento de árvores enterradas no norte do Japão. O aumento nos níveis de carbono-14, detectado especificamente entre o inverno de 1200 e a primavera de 1201, funciona como uma assinatura química da radiação solar intensa. Quando partículas carregadas do Sol atingem a atmosfera, elas catalisam a formação de isótopos raros, como o carbono-14 e o berílio-10, que são posteriormente incorporados pela biosfera.

Os pesquisadores apontam que esse pico isotópico, datado de 1200–1201, e os relatos literários do início do século XIII fazem parte de um mesmo período de instabilidade solar prolongada — e não necessariamente de um único evento isolado. A correlação entre esses picos isotópicos e os dados encontrados em depósitos de gelo confirma, segundo o estudo, que o Sol atravessou um período de instabilidade magnética com ciclos que, de acordo com os autores, duravam entre seis e sete anos, em contraste com a periodicidade mais estável observada hoje.

O processo de datação por carbono-14, comumente utilizado para arqueologia, aqui atua como um sensor de eventos astrofísicos, permitindo reconstruir a história da atividade solar com precisão de meses.

Implicações para a física solar e o clima

A compreensão de que o Sol pode alternar entre ciclos de durações tão distintas levanta questões sobre os modelos de previsão de clima espacial. Eventos de ejeção de massa coronal e explosões de prótons, como os que ocorreram no século XIII, representam riscos significativos para infraestruturas modernas de satélites e redes elétricas. O estudo sugere que o comportamento solar é mais variável do que a literatura científica previa.

Para o ecossistema de pesquisa, essa metodologia interdisciplinar valida a importância de cruzar dados de 'proxy' naturais com registros históricos. A capacidade de prever ou entender a variabilidade solar de longo prazo é crucial para que governos e agências espaciais preparem defesas contra tempestades solares intensas que, no passado, foram registradas apenas por poetas e cronistas.

Perspectivas sobre a variabilidade estelar

A incerteza sobre a frequência com que esses eventos extremos ocorrem permanece como um desafio para a astrofísica. Observar o passado é a única forma de medir o limite superior da atividade solar, dado que o registro instrumental é curto demais para capturar ciclos seculares ou anomalias de baixa frequência.

O monitoramento contínuo de isótopos em diferentes camadas geológicas e biológicas continuará a ser a principal ferramenta para mapear a história solar. A questão central agora é determinar se o início do século XIII foi um ponto fora da curva ou se o Sol possui uma tendência latente a ciclos curtos e explosivos que ainda não compreendemos plenamente.

A combinação de arte e ciência permite reconstruir um passado que, de outra forma, permaneceria invisível aos modelos matemáticos contemporâneos. O caso do século XIII serve como um lembrete de que a estabilidade do Sol é relativa e que o registro histórico, quando interpretado com o rigor da física moderna, é uma fonte inesgotável de dados sobre o comportamento da nossa estrela.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka