Em um momento de fragilidade física, com um quadril fraturado e a vida em processo de reconstrução em um centro de recuperação, o autor se volta para a poesia como um bálsamo. A obra do poeta sueco Tomas Transtromer, em especial seus versos sobre "sentir-se em casa", emerge como um remédio vital, não apenas para a recuperação física, mas para a alma.

O autor reflete sobre a própria jornada em busca de um lar, uma busca que se estende à sua identidade sueca. Ele imagina como seria a vida de seus pais na Suécia, suas profissões e o local onde poderiam ter morado, e como isso moldaria sua própria existência. Essa introspecção é acompanhada pela apreciação da música sueca, com grupos como The Real Group e The Ringmasters, e uma tentativa, ainda que árdua, de aprender o idioma.

Um refúgio na Suécia

A conexão com a Suécia se intensifica com a memória de sua primeira visita ao país. Ao pisar em Malmö, vindo de Copenhague, uma profunda sensação de pertencimento o invadiu, culminando em lágrimas e no reconhecimento de uma "terra natal". Essa experiência se entrelaça com a influência de Transtromer, que, através de seus poemas, convida o autor a encontrar seu lugar, mesmo em circunstâncias adversas. A poesia "Guard Duty" (Dever de Guarda) é um exemplo pungente desse convite, onde o poeta, em meio ao tédio e à solidão do serviço militar, encontra um caminho de volta ao presente, ao "aqui e agora".

A arte como medicina

"Tarefa: estar onde estou. Mesmo quando estou neste papel solene e absurdo: eu ainda sou o lugar onde a criação trabalha em si mesma", escreve Transtromer. Essa frase, um lembrete para o autor, ressoa profundamente em seu estado de convalescença. A poesia se revela não apenas como uma forma de arte, mas como um ato de autoconhecimento e cura. A necessidade de "estar onde estou" torna-se um mantra para aceitar a realidade presente, por mais desafiadora que seja, e para reconhecer a própria capacidade de ser um "lugar onde a criação trabalha em si mesma".

Encontros e memórias

O autor compartilha uma memória vívida de um jantar com Tomas Transtromer e sua esposa, Monika. A conversa fluiu entre música, filhas e a arte da tradução. A descrição do encontro, com a primavera florescendo no campus e a sensação de amizade e juventude, contrasta com a realidade atual da perda, pois tanto Transtromer quanto Robert Bly (seu tradutor) já faleceram. No entanto, a essência de seus ensinamentos permanece, um convite para "sentir-se em casa", mesmo diante da ausência.

O legado em tempos de incerteza

Anos após o encontro, com Transtromer laureado com o Nobel e já falecido, o autor revisita a ideia de "sentir-se em casa". A perda de amigos e mentores literários, como Bly, é sentida, mas a "tarefa" de estar presente e de ser o "lugar onde a criação trabalha em si mesma" persiste. A poesia de Transtromer, com sua profundidade e serenidade, continua a oferecer um porto seguro, um lembrete de que, mesmo em meio à fragilidade e à incerteza, há sempre um espaço interior onde podemos, de fato, nos sentir em casa.

E assim, em meio à recuperação, com o corpo em processo de cura e a alma alimentada pela poesia, o autor segue a jornada, buscando esse lar interior, um refúgio que a arte generosamente oferece. A busca por "sentir-se em casa" transcende o físico e se torna uma exploração da própria existência, um convite para abraçar o presente com serenidade e resiliência.

Com reportagem de Brazil Valley

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