O regime iraniano enfrenta uma crise existencial que transcende as fronteiras da política tradicional, atingindo o núcleo de seu aparato repressivo. Relatos de um oficial da polícia de choque, obtidos ao longo dos primeiros meses de 2026, revelam uma força de segurança fragmentada, desmoralizada e em processo de desintegração acelerada após o início de ataques aéreos coordenados em fevereiro. Segundo a reportagem do Liberties Journal, o que antes era uma estrutura monolítica de controle agora se apresenta como um sistema em colapso, onde comandantes desaparecem e a lealdade das tropas foi substituída pela busca desesperada por sobrevivência.

O cenário de instabilidade é agravado por uma revolta popular que, desde janeiro, desafia a legitimidade da República Islâmica. Para o oficial, um integrante da minoria curda que mantém contato sob anonimato, a transição entre a repressão interna e a sobrevivência sob fogo estrangeiro expôs rachaduras profundas na hierarquia militar e policial. A leitura aqui é que o regime, ao tentar conter simultaneamente a insurreição civil e a pressão bélica externa, perdeu a capacidade de manter a coesão necessária para sustentar seu modelo de governo.

O desmonte da hierarquia repressiva

Historicamente, a força de choque iraniana, conhecida como Unidades Especiais, funcionou como o braço de ferro do Estado, utilizando táticas que variam de cassetetes e gás lacrimogêneo até o uso letal de munição real. No entanto, a dinâmica mudou drasticamente após os eventos de janeiro de 2026. A fragmentação do comando, descrita pelo oficial, sugere que a estrutura de poder, outrora centralizada, agora opera em um ambiente de desconfiança mútua. A substituição constante de superiores e a mudança de residências dos comandantes indicam que o regime teme tanto a traição interna quanto a vulnerabilidade a ataques externos.

Vale notar que a desconfiança não é apenas política, mas também étnica e religiosa. O oficial aponta que a gestão do aparato de segurança é dominada pela maioria xiita, enquanto membros de minorias, como os curdos sunitas, são mantidos sob vigilância constante. Essa segregação interna, longe de fortalecer a segurança do regime, parece ter criado um terreno fértil para a deserção. A percepção de que o sistema está em colapso, compartilhada pelos oficiais na base, minou a autoridade moral e operacional que mantinha a polícia em campo durante protestos anteriores.

A mecanização da violência e a presença estrangeira

Um dos pontos mais críticos revelados pelos relatos é a mudança na natureza da repressão. Durante os protestos de janeiro, a escala da violência atingiu níveis sem precedentes, com o uso de metralhadoras e granadas contra civis. O oficial descreve ter ouvido diálogos em árabe entre as forças de segurança, sugerindo a presença de combatentes estrangeiros integrados ao aparato repressivo iraniano. A menção a agentes à paisana que executavam feridos em hospitais reforça a tese de que o regime, ao se sentir acuado, recorreu a táticas de terra arrasada.

O mecanismo de incentivos também se alterou. Se anteriormente a repressão era motivada por ideologia ou disciplina, agora ela parece ser exercida sob o medo de represálias imediatas. O oficial confessa ter disparado deliberadamente para longe dos manifestantes por medo de ser eliminado por seus próprios superiores ou pelos agentes que vigiavam a retaguarda. Essa dinâmica de terror interno sugere que o regime não confia mais na lealdade ideológica de suas tropas, dependendo agora da coerção física para garantir que as ordens de massacre sejam cumpridas.

Impactos na estabilidade do regime

As implicações deste cenário para o futuro do Irã são profundas. A economia, já debilitada por anos de sanções e corrupção sistêmica, foi devastada pela guerra. A inflação galopante, que obriga até mesmo famílias de policiais a enfrentar filas por pão, retira o último pilar de sustentação do regime: a capacidade de garantir o sustento básico de seus defensores. Quando a base da pirâmide de segurança deixa de ser remunerada e passa a priorizar a fuga do país, a capacidade do Estado de projetar poder interno entra em xeque.

A tensão entre a elite dirigente e a base operacional cria um vácuo de autoridade que pode ser explorado por opositores. Enquanto o governo tenta manter uma fachada de controle, a realidade no terreno é de deserção e desilusão. Para os observadores internacionais, o caso iraniano serve como um estudo sobre como a combinação de pressão externa e falência econômica pode implodir regimes autoritários, mesmo aqueles com aparatos de segurança historicamente formidáveis.

Incertezas sobre o vácuo de poder

O que permanece incerto é a capacidade da oposição em organizar um sucessor viável para o regime. A fragmentação da polícia e a desintegração das Forças Armadas não garantem, por si só, uma transição democrática. O risco de um colapso desordenado, com milícias locais competindo pelo controle de cidades, é uma possibilidade real que preocupa analistas de segurança regional.

O futuro próximo dependerá de quanto tempo a estrutura de comando conseguirá manter a coesão diante da crescente escassez de recursos e da desmoralização das tropas. A decisão do oficial entrevistado de abandonar o uniforme e tentar deixar o país com a família reflete um sentimento que parece se espalhar por todo o corpo de segurança. O desfecho dessa crise, portanto, pode não vir de uma vitória militar externa, mas da simples desistência daqueles que antes garantiam a sobrevivência do sistema.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Liberties Journal