A corrida pela inteligência artificial nas empresas tem gerado um paradoxo: enquanto o investimento cresce, a escala de produção permanece estagnada. Segundo dados recentes, uma parcela significativa de projetos de IA falha ao transitar do piloto para a operação real, consumindo orçamentos em integrações complexas que pouco agregam ao valor do negócio. A análise sugere que o problema central não é técnico, mas estrutural.
Empresas que conseguem extrair resultados concretos da IA não são necessariamente aquelas com os maiores cofres, mas sim as que possuem disciplina operacional. O caso da Seagate, que optou por reconstruir seus processos de TI em vez de apenas replicar sistemas legados ao migrar para uma nova plataforma, ilustra essa mudança de paradigma. Ao estruturar catálogos de serviço e hierarquias, a empresa permitiu que agentes de IA atuassem com eficácia, elevando a resolução de tickets acima dos padrões do setor.
O custo oculto da complexidade
O chamado "imposto da complexidade" devora cerca de um quarto dos orçamentos de IA antes mesmo de qualquer retorno. Muitas organizações tentam forçar a implementação de modelos avançados sobre bases de dados fragmentadas e fluxos de trabalho obsoletos, resultando em sistemas que não conversam entre si. Esse cenário é particularmente crítico para as chamadas empresas ágeis, organizações de médio porte que operam com equipes enxutas e margens apertadas para erros tecnológicos.
Para essas empresas, um projeto de IA que falha não é apenas uma tentativa frustrada, mas um desvio de recursos vitais. A lição extraída de organizações como a New Balance, que consolidou seu stack tecnológico para garantir uma fonte única de verdade antes de escalar, é clara: a tecnologia funciona onde o modelo operacional já está pronto. A prontidão, neste contexto, significa dados organizados e processos definidos, permitindo que a IA otimize o que já existe em vez de tentar consertar o caos.
O mecanismo da execução disciplinada
O sucesso na adoção de IA passa por uma sequência lógica de implementação. CTOs de empresas bem-sucedidas, como os da Katz Media Group, utilizam matrizes de valor e esforço para priorizar projetos, focando naqueles que oferecem retorno imediato com menor fricção técnica. Antes de qualquer automação, a limpeza e rotulagem de dados tornam-se o passo fundamental, eliminando a principal causa de falha em projetos de IA corporativa.
Além da técnica, a socialização da tecnologia desempenha um papel crucial. Ao utilizar mediadores externos para apresentar a IA aos colaboradores, as empresas reduzem a resistência interna e alinham as expectativas. Esse movimento transforma a adoção de IA de um projeto de TI isolado em uma disciplina operacional integrada à rotina, onde o sucesso é medido pelos mesmos indicadores de performance usados em qualquer outra área do negócio.
Implicações para o ecossistema
Para o mercado, a mensagem é de cautela e foco. A redução da fragmentação sistêmica, embora pouco glamorosa para apresentações de conselho, é a alavanca mais poderosa para empresas de médio porte. O foco deve recair sobre a aceleração de fluxos de trabalho e a melhoria da execução, mantendo o humano no circuito para garantir o controle e a qualidade dos resultados.
Essa abordagem descentraliza o poder da IA, tirando-a do domínio exclusivo das gigantes de trilhões de dólares e colocando-a ao alcance de empresas que decidem parar de arrastar legados para o futuro. A capacidade de medir o impacto da IA em números que realmente importam para o ciclo de receita diferencia as empresas que apenas experimentam daquelas que efetivamente transformam seus modelos de negócio.
Outlook e incertezas
A questão que permanece é se as organizações terão a paciência necessária para realizar o trabalho de base antes de ceder à pressão por resultados rápidos. A tendência é que a euforia inicial pela IA continue a colidir com a realidade da dívida técnica, forçando uma seleção natural entre quem constrói bases sólidas e quem tenta atalhos. O futuro da produtividade será ditado por quem souber equilibrar a visão de longo prazo com a entrega de valor imediato.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





