O céu noturno nunca pareceu tão carregado de expectativas quanto agora. Aquela luz errante que corta a escuridão pode ser, finalmente, o sinal de visitantes de outros mundos, ou talvez apenas um espelho distorcido das nossas próprias incertezas projetadas na vastidão. O fenômeno dos OVNIs deixou de ser um nicho de entusiastas para se tornar um tema central na cultura, ocupando desde as telas de cinema até as galerias de arte em Manhattan e os corredores do poder em Washington. É uma obsessão que se manifesta como uma tentativa desesperada de encontrar, no desconhecido, uma resposta para a opacidade dos tempos atuais.

A lente de Spielberg sobre a verdade

Steven Spielberg, mestre da mise-en-scène, lidera essa incursão com seu novo filme Disclosure Day (2026). A obra, que marca um retorno vigoroso do diretor ao tema, acompanha um especialista em cibersegurança interpretado por Josh O’Connor e uma meteorologista vivida por Emily Blunt em uma jornada para desvendar uma conspiração governamental. O filme não apenas revisita o tropo dos encontros imediatos, mas o faz com uma seriedade que ressoa com o clima de desconfiança institucional do presente. O longa funciona como uma peça de época que, paradoxalmente, parece urgente ao tratar de como a verdade é filtrada e escondida do público.

A política do medo e o Outro

Essa curiosidade cultural não é isenta de cinismo político. Em maio deste ano, a Casa Branca sob a administração Trump oficializou a obsessão ao lançar o portal Aliens.gov. A iniciativa, que mistura documentos desclassificados sobre OVNIs com uma retórica agressiva de segurança nacional, traça um paralelo deliberado entre a ameaça extraterrestre e a perseguição a imigrantes. Ao fundir o desconhecido espacial com a demonização do estrangeiro, o governo transforma a curiosidade científica em uma ferramenta de controle, revelando que a nossa definição de 'aliens' diz muito mais sobre quem escolhemos excluir do que sobre quem pode estar nos visitando.

A arte como tradução do inefável

Nas galerias, artistas como Karla Knight e Thandi Loewenson buscam caminhos diferentes para processar essa fascinação. Knight, em suas pinturas expostas na Andrew Edlin Gallery, utiliza uma linguagem visual própria para representar o que não pode ser nomeado, criando objetos que lembram placas de circuito pulsantes e céus enigmáticos. Já a arquiteta Thandi Loewenson, no Storefront for Art and Architecture, explora as divisões coloniais nos relatos de avistamentos na África. Enquanto descendentes de colonizadores narram abduções clássicas, populações locais frequentemente interpretam o fenômeno através de espectros ancestrais, demonstrando que a forma como percebemos o 'Outro' está profundamente enraizada na nossa própria história e traumas.

O espelho das nossas convicções

No Gagosian, a mostra Ghosts, de Eliza Douglas, homenageia a jornalista Leslie Kean, cuja investigação sobre o programa secreto de OVNIs do Pentágono, publicada originalmente no New York Times em 2017, pavimentou o caminho para o atual interesse público. As telas de Douglas, que sobrepõem autorretratos de Kean contra céus noturnos e figuras pop, sugerem que a busca por alienígenas é, no fundo, uma busca por uma transcendência que nos escape. A incerteza permanece: seremos capazes de reconhecer algo que não se encaixa nas nossas categorias de poder, medo ou linguagem, ou estamos condenados a ver apenas o que já tememos?

Talvez a resposta não esteja em buscar luzes no céu, mas em aprender a ouvir o que não compreendemos. Como sugere o desfecho de Disclosure Day, o verdadeiro desafio é a atenção plena ao que nos cerca, uma disposição para atender ao desconhecido sem a necessidade imediata de classificá-lo ou temê-lo. O horizonte permanece aberto, povoado por nossas próprias projeções, esperando que, um dia, o silêncio finalmente ceda lugar a uma comunicação que transcenda o nosso próprio ego.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews