A perseguição histórica a comunidades judaicas sob o pretexto de antissionismo não é um fenômeno recente, mas uma corrente que atravessa décadas de tensões geopolíticas. Em setembro de 1948, a execução pública de um empresário judeu no Iraque, sob a acusação de ser um "traidor sionista", ilustrou o uso dessa retórica para legitimar a violência estatal. O episódio, longe de ser isolado, antecipou um padrão de perseguição que resultou no êxodo de 850 mil judeus de países do Oriente Médio ao longo do século XX. A narrativa contemporânea, frequentemente, omite esses eventos, tratando a hostilidade contra Israel como uma forma de justiça universal, enquanto ignora as consequências diretas sobre populações judaicas locais.

As raízes ideológicas da rejeição

A deslegitimação de Israel pela esquerda ocidental encontra raízes profundas na teoria política do início do século XX. Vladimir Lenin, em seus escritos, classificou o sionismo como um nacionalismo burguês, uma estratégia para dividir o proletariado internacional. Essa interpretação, consolidada após a Revolução Bolchevique, permitiu que o aparato de propaganda soviético enquadrasse a cultura judaica como uma ameaça à unidade revolucionária. A partir de 1917, instituições judaicas foram sistematicamente desmanteladas, e o sionismo passou a ser o estigma usado para justificar a repressão estatal sob a égide da luta contra o imperialismo.

Após a criação do Estado de Israel, a retórica marxista-leninista adaptou-se para rotular o país como um enclave ocidental no Oriente Médio. Intelectuais como Fayez Sayegh, em obras como "Zionist Colonialism in Palestine", buscaram desconstruir a indigeneidade judaica, tratando-a como uma construção colonial do século XIX. Essa reescrita da história transformou a autodeterminação judaica em um projeto de exclusão, enquanto o nacionalismo árabe era celebrado como uma força emancipatória. O resultado foi a transposição de antigas polêmicas teológicas contra o "povo escolhido" para o discurso político moderno, onde a existência de Israel é frequentemente tratada como uma violação da ordem internacional.

O mecanismo de inversão moral

O antissionismo moderno opera através de uma inversão de valores que confunde a crítica legítima às políticas de um Estado com a negação do direito à existência de um grupo nacional. Ao adotar a linguagem da descolonização e dos direitos humanos, movimentos progressistas frequentemente ignoram que a Convenção sobre Genocídio protege todos os grupos nacionais, incluindo aqueles baseados em cidadania compartilhada. A transformação de Israel no arquétipo do "Estado pária" — acusado de colonialismo, apartheid e genocídio — opera como um ritual global que simplifica conflitos complexos em uma dicotomia de opressor e oprimido.

Essa dinâmica é exacerbada pela tendência da esquerda em desconfiar de Estados-nação e abraçar um internacionalismo que, paradoxalmente, torna-se hostil à soberania de uma minoria perseguida. Ao rotular sionistas como agentes de uma supremacia global, a retórica antissionista exige que judeus renunciem à sua identidade nacional para serem aceitos no campo progressista. O impacto dessa pressão é sentido em universidades, ONGs e meios de comunicação, onde a demonização de Israel substitui a análise sóbria das realidades geopolíticas regionais.

Tensões na identidade progressista

A crescente religiosidade e o nacionalismo na sociedade israelense pós-1967 criaram um abismo entre o Estado e as sensibilidades cosmopolitas da esquerda americana e europeia. Contudo, a exigência de que Israel se alinhe a ideais seculares ocidentais ignora a demografia do país, que inclui uma vasta população de judeus mizrahim, expulsos de nações árabes, cujas tradições diferem do secularismo europeu. O desafio para a esquerda é reconciliar seu compromisso com a igualdade com a necessidade de reconhecer a legitimidade de sociedades que não espelham perfeitamente seus modelos teóricos.

Manter um compromisso autêntico com os direitos humanos implica, necessariamente, opor-se a movimentos que buscam a eliminação de Estados ou a purga de indivíduos com base em sua identidade nacional. A resistência ao antissionismo não deve ser vista como um apoio incondicional a todas as políticas israelenses, mas como uma defesa da coerência ética. Sem essa distinção, a esquerda corre o risco de perpetuar a mesma lógica de exclusão que historicamente buscou combater.

O futuro da crítica política

A persistência dessa hostilidade sugere que a questão central não é apenas o comportamento do governo israelense, mas a própria natureza da identidade judaica no mundo contemporâneo. O que permanece em aberto é se o movimento progressista será capaz de reformular sua relação com o nacionalismo judaico sem recorrer à desumanização ou ao apagamento histórico.

A desordem que o antissionismo aponta no mundo é, com frequência, a mesma desordem que ele próprio catalisa ao promover a exclusão. A tarefa de reparar essa fratura exige uma honestidade intelectual que a política atual tem evitado, mas que continua sendo um imperativo para qualquer movimento que se pretenda universalista. Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Atlantic — Ideas