A partir desta quinta-feira, os consumidores de Porto Rico enfrentam um novo e recorde patamar nas tarifas de energia elétrica. O aumento de 18% eleva a conta mensal média de uma residência que consome 800 kWh de US$ 229 para US$ 271. A decisão, aprovada pelo Bureau de Energia da ilha, reflete a persistência de apagões e a deterioração contínua da rede elétrica do território americano. A nova tarifa, com validade até pelo menos 31 de dezembro, adiciona pressão a um custo de vida já elevado em uma ilha onde mais de 40% dos 3,2 milhões de habitantes vivem na pobreza.

Com 33,86 centavos de dólar por kWh, a nova taxa supera em muito a média de 18,3 centavos cobrada nos Estados continentais, segundo a Administração de Informações de Energia dos EUA. A Luma Energy, responsável pela transmissão e distribuição de energia na ilha, solicitou o reajuste para cobrir o aumento de custos, não para gerar receita adicional. A empresa citou o alto consumo devido às temperaturas de verão, a alta global do petróleo — impactada pelo conflito no Oriente Médio —, o uso de baterias pelos consumidores e a necessidade de recorrer a combustíveis mais caros quando as usinas não geram energia suficiente.

Crise Elétrica e Dependência de Fósseis

A rede elétrica de Porto Rico, já fragilizada por décadas de subinvestimento e falta de manutenção, sofreu um golpe devastador com o Furacão Maria em 2017. Desde então, a ilha tem lutado para manter um fornecimento estável. Incidentes recentes, como um grande incêndio em uma subestação que deixou mais de 200.000 clientes sem luz na semana passada, evidenciam a precariedade da infraestrutura. A dependência de combustíveis fósseis é um fator chave na instabilidade e no custo da energia. Em 2024, o petróleo representou 63% do consumo energético da ilha, seguido por gás natural (31%), carvão (5%) e renováveis (1%), segundo dados da EIA. Essa matriz energética torna Porto Rico vulnerável às flutuações dos preços internacionais de combustíveis.

Implicações Econômicas e Sociais

O aumento nas tarifas de energia tem implicações diretas na vida dos porto-riquenhos, especialmente para as famílias de baixa renda que já lutam para cobrir despesas básicas. O governo da ilha, sob a administração da governadora Jenniffer González, busca ativamente cancelar o contrato com a Luma Energy, em meio a disputas judiciais. A Luma e a Genera PR, responsável pela geração de energia, foram contratadas em um momento em que a estatal Autoridade de Energia Elétrica de Porto Rico tenta reestruturar uma dívida superior a US$ 9 bilhões. A situação é agravada por questões logísticas e de fornecimento de combustível, como a dificuldade de acesso de um navio com gás natural ao porto de San Juan, forçando o uso de diesel mais caro.

Gestão e Controvérsias no Fornecimento

O Bureau de Energia, ao aprovar o aumento, decidiu não repassar integralmente os custos associados a supostas falhas da New Fortress Energy no fornecimento de combustível entre junho e agosto, no valor de US$ 17,6 milhões. A agência declarou que "os custos de combustível não devem ser automaticamente repassados ao consumidor simplesmente porque foram incorridos ou faturados". Paralelamente, o Bureau investiga cerca de US$ 19 milhões que a Luma alega ter pago por quantidades de gás que, segundo autoridades, excederam as necessidades ou a capacidade de recebimento da Genera PR. Essas controvérsias adicionam uma camada de complexidade à já delicada gestão do setor elétrico da ilha.

Perguntas sobre o Futuro da Rede

O futuro da infraestrutura energética de Porto Rico permanece incerto. A batalha judicial para renegociar ou cancelar contratos existentes, a dependência de combustíveis fósseis voláteis e a necessidade de investimentos massivos para modernizar a rede são desafios de longo prazo. A ilha precisa encontrar um caminho sustentável que equilibre a necessidade de energia confiável e acessível com a transição para fontes mais limpas e resilientes. A questão central é se Porto Rico conseguirá superar essas barreiras para garantir um futuro energético mais estável e justo para seus cidadãos.

O aumento recorde nas tarifas de energia serve como um alerta sobre a fragilidade da infraestrutura essencial em territórios com limitações fiscais e geográficas, e a complexa teia de fatores que afetam o acesso e o custo da energia. A trajetória futura dependerá da capacidade de resolver disputas contratuais, diversificar a matriz energética e atrair investimentos para uma rede que clama por modernização.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune