A sociedade americana vive um paradoxo: as pessoas compram mais livros do que nunca, mas sua capacidade de interpretar textos complexos e pensar de forma analítica parece estar em franco declínio. A provocação, levantada em um ensaio de John Ambrosio no portal 3 Quarks Daily, argumenta que os Estados Unidos estão se tornando uma sociedade “pós-letrada”. O termo não descreve um analfabetismo clássico, mas uma condição mais sutil: a população consegue decodificar palavras, mas perde crescentemente as habilidades de ordem superior — como o pensamento lógico, abstrato e a síntese de argumentos complexos.
A tese, que ecoa um artigo anterior de Rose Horowitch na revista The Atlantic, sugere que o problema não é a quantidade de leitura, mas sua qualidade e natureza. O tempo gasto em rolagem infinita de redes sociais e consumo de vídeos curtos estaria atrofiando a capacidade de atenção sustentada, essencial para o engajamento com ideias sofisticadas. A leitura aqui é que essa fratura cognitiva oferece uma lente mais precisa para entender a polarização política e a erosão do debate público do que as tradicionais divisões demográficas ou educacionais.
A anatomia do analfabetismo funcional
Os dados que sustentam essa visão são alarmantes. Segundo o Programa para Avaliação Internacional de Competências de Adultos (PIAAC), um estudo de 2023, 54% dos adultos americanos apresentam um nível de leitura abaixo do equivalente ao sexto ano do ensino fundamental. Cerca de 21% são classificados como funcionalmente analfabetos. Contrariando o senso comum, o levantamento indica que dois terços desses adultos são nascidos nos EUA, descartando a imigração como principal fator. O estudo também registrou uma queda significativa na proficiência de leitura dos americanos entre 2017 e 2023.
Este cenário coexiste com um aparente boom no mercado editorial. Livrarias, tanto de grandes redes quanto independentes, prosperam, e as vendas de livros estão em alta. O paradoxo se desfaz quando se observa a distribuição: um relatório da National Endowment for the Arts aponta que apenas 20% dos adultos foram responsáveis por mais de 80% dos livros lidos no ano passado. O movimento sugere a consolidação de uma minoria de leitores ávidos em contraste com uma vasta maioria que, embora possa comprar livros, não necessariamente se engaja com textos que exigem esforço cognitivo. A leitura se concentra, enquanto a capacidade de compreensão se pulveriza.
Da cognição à polarização
O argumento central do ensaio é que essa degradação cognitiva tem consequências políticas diretas. A mudança de uma cultura primariamente textual para uma dominada pelo audiovisual de consumo rápido — como vídeos curtos e posts em redes sociais — cria um ambiente propício para a demagogia. A comunicação de líderes como Donald Trump, baseada em espetáculo, apelo emocional e repetição incessante, explora precisamente essa falta de atenção sustentada e de pensamento crítico. Em um ecossistema onde a imagem sobrepõe a lógica, a verificação de fatos se torna secundária à ressonância emocional da mensagem.
A análise propõe, então, uma nova divisão para entender o eleitorado: não entre diplomados e não diplomados, mas entre “letrados” e “pós-letrados”. A distinção é crucial, pois um diploma universitário, especialmente em um sistema cada vez mais focado em treinamento para o mercado de trabalho, não é garantia de proficiência intelectual. A verdadeira fratura estaria nos hábitos mentais: de um lado, aqueles que consomem informação de forma crítica e estruturada; de outro, os que a absorvem passivamente através de estímulos rápidos e emocionais. Nesse contexto, a política deixa de ser um debate de propostas para se tornar um teatro de identidades.
O futuro da política em uma sociedade com essas características tende a depender cada vez mais de carisma, status de celebridade e valor de entretenimento dos candidatos, em detrimento da substância de suas ideias. Embora a política como espetáculo não seja um fenômeno novo, a era digital parece ter acelerado drasticamente essa tendência. A questão que permanece em aberto é se essa dinâmica, que aprofunda a polarização ao criar realidades informacionais distintas e incomunicáveis, é um prenúncio do que aguarda outras democracias imersas no mesmo ambiente tecnológico.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · 3 Quarks Daily





