Pela primeira vez desde o início da série histórica em 2016, o Brasil registrou uma queda na proporção de crianças de 10 a 13 anos que possuem celular. Dados da Pnad Contínua, divulgados pelo IBGE, indicam que 55,2% dessa faixa etária possuíam um aparelho em 2025, um recuo de 1,5 ponto percentual em comparação ao ano anterior. O levantamento também aponta uma leve retração no acesso à internet entre os mais jovens, que passou de 84,9% para 84,4%, movimento que destoa da tendência de crescimento observada nas demais faixas etárias da população brasileira.
O fenômeno marca uma inflexão importante na dinâmica de consumo tecnológico das famílias brasileiras. Enquanto o acesso digital continua a se expandir de maneira robusta entre adultos e idosos, o público infantil começa a enfrentar um novo tipo de barreira: a preocupação explícita dos responsáveis com os riscos inerentes ao ambiente virtual. A leitura aqui é que o dispositivo, antes visto como uma ferramenta de inclusão e conectividade quase obrigatória, passou a ser encarado como um vetor de vulnerabilidade.
A mudança no comportamento das famílias
O fator determinante para essa mudança de rota parece ser a percepção de risco. Segundo os dados da pesquisa, 32% dos responsáveis que optaram por não presentear os filhos com um celular citam a privacidade e a segurança como os motivos principais. Esse índice quase dobrou desde 2022, superando o custo do aparelho, que historicamente liderava o ranking de justificativas para o adiamento da compra.
Analistas do IBGE sugerem que o debate público sobre a exposição de menores em redes sociais e as recentes restrições ao uso de celulares em ambientes escolares, implementadas ao longo de 2025, contribuíram para consolidar esse comportamento mais cauteloso. A tecnologia, portanto, deixa de ser tratada apenas como um bem de consumo e passa a exigir uma gestão de risco ativa por parte dos pais.
O contraste com a inclusão digital dos idosos
Enquanto o uso de celulares perde tração entre crianças, o cenário é oposto para a população com mais de 60 anos. Em 2025, 74,5% dos idosos já utilizavam a internet e 80,3% possuíam celular, números que reforçam a crescente digitalização de serviços essenciais. A necessidade de acessar bancos, portais de governo e serviços públicos atua como um motor de inclusão para esse grupo demográfico.
Essa discrepância revela uma dualidade na sociedade brasileira: o avanço da conectividade para a sobrevivência cotidiana dos mais velhos versus a tentativa de preservação do espaço analógico para os mais novos. O estímulo para o uso entre idosos é pragmático, voltado para a autonomia, enquanto a restrição entre crianças é defensiva, voltada para a proteção contra os riscos do ecossistema digital.
Implicações para o mercado e reguladores
Para as fabricantes de hardware e plataformas de redes sociais, o recuo entre o público infantil representa um desafio de mercado. Se a preocupação com a segurança se tornar um padrão cultural de longo prazo, a indústria poderá enfrentar uma pressão crescente por dispositivos e sistemas operacionais com controles parentais mais rigorosos e nativos, além de interfaces que limitem a coleta de dados de menores.
Para os reguladores, o dado do IBGE é um sinal de que a sociedade civil está reagindo à falta de mecanismos de proteção claros. A tendência pode forçar uma aceleração de políticas públicas voltadas à educação digital e à regulação de plataformas, buscando mitigar os danos que levam os pais a retirar, ou impedir, o acesso das crianças aos dispositivos.
O futuro da conectividade infantil
O que permanece incerto é se essa queda representa apenas uma pausa temporária no processo de digitalização infantil ou o início de um novo paradigma de consumo, onde a infância é deliberadamente mantida longe dos dispositivos móveis. A estabilidade no acesso entre adolescentes de 14 a 19 anos sugere que a transição para a vida digital apenas foi postergada, e não eliminada.
O monitoramento das próximas edições da Pnad será crucial para entender se essa cautela se traduzirá em novas formas de consumo tecnológico ou em uma exclusão digital prolongada para os mais jovens. O equilíbrio entre o acesso aos benefícios da rede e a mitigação dos riscos de segurança continuará a ser a principal tensão no desenvolvimento das futuras gerações brasileiras.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Olhar Digital





