O Partido Popular (PP), principal força de oposição na Espanha, lançou uma proposta legislativa que mira um dos pilares do Estado de direito: a cidadania. A ideia é permitir que migrantes que adquiriram a nacionalidade espanhola possam perdê-la caso cometam crimes. A iniciativa foi apresentada como uma medida de "bom senso" para "valorizar" a cidadania e "não presenteá-la".

Segundo reportagem da Forbes España, ao ser questionado se a medida se aplicaria a crimes de corrupção, um porta-voz do partido, Elías Bendodo, desconversou, afirmando ser "um tema distinto". A evasiva expõe o cerne da questão: a proposta parece desenhada não para punir todos os criminosos, mas um tipo específico de cidadão, criando, na prática, uma cidadania de segunda classe com menos direitos que a dos nativos.

O cálculo político da ambiguidade

A proposta do PP é um movimento politicamente calculado. Ao focar em "delinquentes" e evitar especificar os crimes, o partido acena para uma base eleitoral preocupada com a imigração e a segurança pública. A retórica de "endurecer" os requisitos para ser espanhol explora um sentimento nacionalista e se alinha a tendências da direita em toda a Europa. A ambiguidade, no entanto, é estratégica.

Ignorar a corrupção na discussão não é um lapso. Incluir crimes de colarinho branco no escopo da lei diluiria sua mensagem anti-imigração e poderia, em tese, afetar indivíduos com poder econômico e político, descaracterizando o apelo populista da medida. A seletividade implícita sugere que o alvo não é o crime em si, mas o perfil do criminoso: o estrangeiro naturalizado.

O desafio constitucional

O maior obstáculo para a proposta do PP não é político, mas legal. A própria declaração de que o partido irá "buscar o encaixe legal" para a medida é um reconhecimento de sua fragilidade constitucional. A Constituição espanhola, assim como a de outras democracias consolidadas, estabelece a igualdade de todos os cidadãos perante a lei. Criar um mecanismo punitivo que se aplica apenas a um subgrupo de cidadãos — os naturalizados — fere esse princípio fundamental.

O debate que se abre na Espanha transcende as fronteiras do país. Ele toca em uma questão central para as nações ocidentais: a cidadania é um direito adquirido e irrevogável ou um privilégio condicional? A forma como o sistema jurídico espanhol responder a essa provocação servirá de termômetro para a força das garantias individuais frente a ondas de retórica populista.

A proposta do PP, portanto, é mais do que uma sugestão de política de segurança; é um teste de estresse para os fundamentos do contrato social espanhol. O caminho de slogan a projeto de lei será tortuoso, e seu resultado definirá os contornos do que significa ser cidadão no país nas próximas décadas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España