Maryland e Connecticut estabeleceram precedentes importantes em 2025 ao proibir a chamada "precificação por vigilância". A medida, que impede varejistas e serviços de entrega de utilizar dados pessoais para ajustar preços dinamicamente, sinaliza uma mudança na tolerância regulatória em relação ao uso de algoritmos. Nova York e Califórnia agora avaliam legislações similares, refletindo uma preocupação crescente com a transparência das transações digitais.

O debate, contudo, transcende a simples regulação de preços. A questão central, segundo pesquisadores da Yale School of Management, reside na finalidade do uso de dados e inteligência artificial. Quando a tecnologia permite que empresas compreendam clientes e trabalhadores com níveis inéditos de detalhamento, a linha entre a eficiência de mercado e a extração predatória de valor torna-se perigosamente tênue.

A distinção entre transação e indivíduo

A precificação dinâmica baseada em variáveis de mercado, como clima ou tráfego, é amplamente aceita como um mecanismo de equilíbrio. O problema surge quando a precificação deixa de focar na transação e passa a focar no perfil do indivíduo. Ao utilizar histórico de compras, dispositivos e inferências sobre a disposição de pagamento, empresas podem identificar vulnerabilidades específicas dos consumidores.

A Federal Trade Commission (FTC) destacou em estudo recente que essa lógica não se limita aos clientes. Algoritmos podem reduzir pagamentos a trabalhadores prevendo quem aceitará a oferta por necessidade ou por metas diárias. Essa prática de explorar vulnerabilidades em vez de otimizar o mercado corrói a confiança e impulsiona a onda de regulações estaduais que ganha força no cenário americano.

O papel dos agentes de IA

A ascensão dos agentes de IA promete elevar a escala dessa vigilância. Diferente de uma busca isolada, esses agentes observam o contexto de vida do usuário — desde hábitos de saúde até padrões de consumo sob estresse. Com projeções da Bain & Company indicando que agentes de IA podem influenciar até US$ 500 bilhões em comércio nos EUA até 2030, a capacidade de prever necessidades torna-se um ativo crítico.

A grande questão é a lealdade desses agentes. Se o sistema conhece as vulnerabilidades do usuário, ele pode agir para encontrar economia real ou para maximizar a extração financeira. A tentação de monetizar essa influência será imensa, dado o volume de capital investido no desenvolvimento dessas ferramentas de personalização avançada.

Desafios para o ecossistema corporativo

Empresas enfrentam agora um dilema de governança. A pesquisa da Yale, fundamentada em entrevistas com mais de 200 CEOs, sugere que o valor para o acionista a longo prazo depende da construção de confiança com stakeholders. O uso de IA para otimizar cada interação para ganho imediato pode gerar lucro no curto prazo, mas destrói o capital relacional necessário para a sustentabilidade do negócio.

Para o ecossistema brasileiro, o caso serve como um alerta sobre a necessidade de diretrizes éticas claras. À medida que plataformas locais adotam agentes de IA, a pressão regulatória e a demanda dos consumidores por transparência devem crescer. A forma como as empresas responderão a esse teste definirá o futuro da relação entre a tecnologia e a autonomia do consumidor.

O futuro da confiança algorítmica

O que permanece incerto é se a autorregulação corporativa será suficiente para mitigar os riscos de manipulação. A capacidade de influenciar decisões humanas através de vieses comportamentais exige uma vigilância constante por parte de órgãos reguladores e da sociedade civil.

O mercado observará atentamente quais companhias priorizarão a transparência em detrimento da extração. A precificação por vigilância é apenas o primeiro teste de uma era onde a IA poderá agir em nome dos usuários, tornando a governança desses sistemas a pauta definitiva para os próximos anos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune