O setor global de private equity está redirecionando sua estratégia de criação de valor, colocando as fusões e aquisições (M&A) no centro das prioridades para 2026. Segundo o relatório '2026 Private Equity Value Creation Index', elaborado pela FTI Consulting, a busca por escala e diversificação via aquisições estratégicas ganhou novo fôlego em um cenário onde o crescimento orgânico tornou-se significativamente mais complexo.
A mudança de postura é notável. De acordo com o levantamento, que ouviu 555 altos executivos de 14 países, incluindo a Espanha, 24% dos entrevistados agora apontam o M&A como o principal gerador de valor para suas teses. O número representa um salto expressivo em relação aos 7% registrados anteriormente, sinalizando uma mudança estrutural na forma como os fundos pretendem entregar retornos aos investidores nos próximos anos.
A busca por escala em mercados maduros
A tese central por trás dessa movimentação é a necessidade de acelerar a expansão comercial e o posicionamento competitivo em mercados onde o crescimento interno atingiu um teto ou exige investimentos de capital proibitivos. Para as firmas de private equity, a aquisição estratégica funciona como um atalho para a consolidação, permitindo que empresas do portfólio ganhem escala de forma mais rápida do que seria possível através de esforços isolados de vendas ou desenvolvimento de novos produtos.
Contudo, a execução permanece como o maior desafio. O relatório destaca uma desconexão entre a intenção estratégica e a eficiência operacional: apenas 35% dos gestores consideram a implementação de suas operações de M&A como eficiente ou altamente eficiente. Esse índice é o mais baixo entre todas as alavancas de valor analisadas, evidenciando que, embora o apetite por aquisições tenha crescido, a capacidade de integrar ativos e capturar sinergias continua sendo o principal gargalo para a rentabilidade real.
O diferencial dos 'high performers'
Existe uma parcela do mercado, identificada no estudo como 'high performers' – cerca de 40% da amostra –, que consegue navegar por essas ineficiências com maior sucesso. Essas firmas, que superaram as expectativas de rentabilidade no último ano, apresentam uma execução de M&A notadamente mais fluida. Enquanto a média do mercado enfrenta dificuldades de integração, 46% desse grupo de elite classifica seus processos de fusão como bem-sucedidos, contra apenas 29% do restante dos entrevistados.
A diferença reside, em grande parte, na profissionalização dos processos. As firmas de alto desempenho têm adotado planos de transformação desde a fase de diligência, utilizando 'playbooks' operacionais padronizados e tecnologia para acelerar o impacto. A pressão por resultados mais rápidos também é um fator indutor: 63% dos respondentes afirmam ter gerado impacto medível em menos de 12 meses, um aumento considerável frente aos 41% observados no ciclo anterior.
O papel incerto da inteligência artificial
Em paralelo ao foco em M&A, o uso da inteligência artificial aparece como uma promessa de eficiência, embora ainda cercada de ceticismo prático. Embora 66% dos gestores relatem ter obtido benefícios vinculados à IA em menos de um ano, a percepção de eficiência operacional é baixa. Apenas 31% das firmas consideram a implementação da tecnologia como eficiente, sugerindo que a IA ainda é vista mais como um experimento do que como uma ferramenta de execução madura.
Para o ecossistema brasileiro, o movimento reflete a tendência global de buscar valor em operações de consolidação, especialmente em setores fragmentados. A questão que permanece para os próximos meses é se as gestoras conseguirão elevar a eficiência de suas integrações ou se o ímpeto por aquisições acabará por corroer margens devido à má execução.
Perspectivas e desafios de execução
O cenário para 2026 exige que as gestoras de private equity refinem seus modelos de execução. A transição de uma estratégia focada em crescimento orgânico para uma baseada em compras estratégicas exige competências distintas, especialmente em diligência e integração pós-fusão, áreas onde o mercado tem demonstrado fragilidade.
Acompanhar como os 'high performers' continuam a padronizar suas operações será fundamental. A capacidade de transformar a teoria de M&A em valor tangível, superando os obstáculos operacionais que hoje travam a maioria dos fundos, definirá quem conseguirá entregar retornos acima da média em um ambiente de juros e crescimento voláteis.
O sucesso das próximas rodadas de desinvestimento dependerá menos da estratégia de compra em si e mais da capacidade de integrar e escalar ativos de forma rápida e eficiente. O mercado observa atentamente se a curva de aprendizado operacional acompanhará a velocidade das transações.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





