A Organização Meteorológica Mundial (OMM) elevou para 90% a probabilidade de o El Niño se consolidar até novembro deste ano. Segundo a entidade, os modelos climáticos atuais indicam um evento de intensidade pelo menos moderada, com potencial real de atingir patamares fortes. A diretora-geral da OMM, Celeste Saulo, reforçou que o fenômeno exigirá preparo imediato para lidar com secas severas, chuvas torrenciais e ondas de calor extremas em terra e nos oceanos.

O El Niño é um fenômeno natural que altera a temperatura da superfície do Pacífico equatorial, desencadeando mudanças globais nos padrões de ventos e pressão atmosférica. Embora ocorra em ciclos de dois a sete anos, a preocupação atual reside na sua interação com o aquecimento global. A OMM ressalta que, embora as mudanças climáticas não aumentem necessariamente a frequência do evento, elas amplificam sua capacidade de destruição ao fornecer mais energia e umidade para extremos climáticos.

Dinâmica do fenômeno e riscos econômicos

O mecanismo central do El Niño envolve o deslocamento de águas quentes que alteram a circulação atmosférica global. Para o mercado, isso se traduz em volatilidade imediata em setores sensíveis, como a agricultura. Regiões críticas para a produção de commodities, como o sul da Ásia, podem enfrentar monções abaixo da média, enquanto a América Central projeta verões mais secos e quentes. Tais variações afetam diretamente a oferta global de grãos e a precificação de insumos.

Historicamente, o impacto do El Niño extrapola o campo. A gestão de recursos hídricos torna-se um desafio para a geração de energia, especialmente em países com forte dependência hidrelétrica, como o Brasil. A redução de chuvas em bacias estratégicas pode elevar os custos operacionais do setor elétrico, pressionando a inflação de energia para a indústria e o consumidor final.

Implicações para a infraestrutura e o Brasil

Para o ecossistema brasileiro, o El Niño representa um risco estrutural para o agronegócio, pilar fundamental da balança comercial. A instabilidade nos regimes de precipitação pode comprometer janelas de plantio e colheita, exigindo que produtores e seguradoras reavaliem seus modelos de risco. Além disso, a infraestrutura logística brasileira, dependente de rios e rodovias, pode enfrentar gargalos decorrentes de eventos extremos.

A resposta global, segundo o secretário-geral da ONU, António Guterres, deve focar na transição energética e na implementação de sistemas de alerta precoce. Atualmente, 128 países possuem mecanismos de aviso para múltiplos riscos, com a meta de atingir cobertura universal até 2027. Para o setor privado, a adoção dessas ferramentas de mitigação deixou de ser uma política de responsabilidade social para se tornar um imperativo de continuidade operacional.

Perspectivas e incertezas climáticas

O pico do fenômeno é esperado entre novembro e fevereiro, contudo, os efeitos nas temperaturas globais tendem a ser sentidos com defasagem. A OMM prevê temperaturas acima da média em praticamente todo o globo entre junho e agosto, criando um cenário de estresse térmico constante. A incerteza reside na intensidade final do evento, que determinará a magnitude das perdas econômicas e a necessidade de intervenções governamentais.

Observar a evolução das temperaturas subsuperficiais no Pacífico será o próximo passo para calibrar as projeções de mercado. A economia global entra em um período de vigilância, onde a resiliência das cadeias de suprimentos será testada pela variabilidade climática. A questão que permanece é se as estratégias de adaptação atuais serão suficientes para absorver o impacto de um evento que, segundo a ONU, é um alerta climático urgente.

A antecipação de cenários climáticos torna-se, portanto, a variável mais importante nas planilhas de risco para os próximos trimestres. A volatilidade dos preços das commodities e a segurança do suprimento energético dependerão da eficácia das políticas de adaptação implementadas nos próximos meses.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times