A recente proibição das plataformas de apostas online, popularmente conhecidas como bets, no Brasil parece estar gerando os primeiros efeitos no comportamento do consumidor, com um impulso notável nas vendas do varejo alimentar. Relatório do BTG Pactual, divulgado em 29 de novembro, aponta que dados da Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS) indicam um crescimento nas vendas entre 6,3% e 6,5% em semanas consecutivas após a proibição, que entrou em vigor em 25 de setembro. A ABRAS também registrou uma queda inicial de 10% nas transações via Pix, que se estabilizou em cerca de 7% abaixo dos níveis pré-medida.
O que os números sugerem
Embora o BTG Pactual ressalte que os dados não estabelecem uma relação causal direta e definitiva, os analistas do banco veem esses indicadores como "indícios preliminares encorajadores" de uma possível mudança nos padrões de consumo das famílias. A observação, feita em parceria com a Scanntech, que monitora grande parte das transações do varejo, indicava que a recuperação das vendas em setembro era sustentada por aumentos de preços, e não por um volume maior de consumo. A perda de poder de compra das famílias era vista como o principal desafio. Os números da Abras, nesse contexto, podem sinalizar uma reversão dessa tendência, mesmo com metodologias de pesquisa distintas.
O fluxo de dinheiro em jogo
O potencial impacto financeiro da medida é considerável. Estimativas citadas pelo BTG indicam que o mercado de apostas online movimentou cerca de R$ 36,9 bilhões em receita bruta no último ano, com aproximadamente 25,2 milhões de participantes adultos e um gasto médio líquido mensal de R$ 122 por apostador. A expectativa é que parte desses recursos possa retornar gradualmente para o consumo tradicional. Contudo, o banco alerta para o risco de apostadores migrarem para plataformas ilegais, o que poderia mitigar o impacto positivo sobre o consumo formal.
Potenciais beneficiados e o futuro do varejo
Diante desse cenário, o BTG Pactual identifica Assaí (ASAI3) e Grupo Mateus (GMAT3) como potenciais beneficiados diretos em um eventual aumento sustentado das vendas em supermercados. A análise sugere que essa recuperação no setor de alimentos e bebidas poderia se estender futuramente para outros segmentos do varejo, como farmácias e vestuário. No entanto, o banco mantém cautela, considerando que ainda é cedo para afirmar que o setor de varejo entrou em um ciclo estrutural de recuperação.
Perguntas em aberto
A principal incerteza reside na sustentabilidade dessa tendência e na capacidade das plataformas legais de reter o fluxo de consumidores. Será crucial monitorar se a migração para o consumo tradicional será expressiva o suficiente para compensar a perda de receita e se os esforços de fiscalização serão eficazes contra o mercado ilegal de apostas. A adaptação do consumidor e a resposta do varejo a essa nova dinâmica definirão o alcance real do impacto da proibição.
O cenário é de observação atenta, com os primeiros sinais indicando uma possível realocação de recursos que beneficiaria setores tradicionais de consumo. A consolidação dessa tendência, porém, dependerá de múltiplos fatores, incluindo a capacidade do mercado de absorver o fluxo de recursos e a eficácia das medidas regulatórias.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





