O presidente Vladimir Putin está intensificando a pressão sobre a economia russa para financiar a guerra na Ucrânia e cobrir um déficit orçamentário crescente, que atingiu US$ 72 bilhões até agosto de 2026. As novas medidas fiscais, aprovadas em meio ao orçamento plurianual 2027-2029, visam um segmento mais restrito da economia em comparação com aumentos anteriores, focando em empresas mineradoras e cidadãos com rendimentos de investimento.
As Novas Taxas Fiscais
A Rússia propõe uma taxação de 20% a 30% sobre os lucros extraordinários de empresas mineradoras — como as produtoras de minério de ferro, níquel e ouro —, que se beneficiaram do aumento dos preços globais. Paralelamente, as alíquotas de imposto sobre juros, dividendos e ganhos de capital com a venda de imóveis serão elevadas de 13% para 22% para rendimentos acima de 2,4 milhões de rublos (aproximadamente US$ 29.800).
A partir de 1º de janeiro de 2027, também entrará em vigor uma taxa de 100 rublos por pacote sobre bens estrangeiros de baixo valor adquiridos online — anteriormente isentos —, além de um imposto sobre valor agregado (IVA) de 20% sobre essas compras. Investidores de "países hostis" enfrentarão uma alíquota de 35% sobre dividendos enviados para contas restritas.
Mecanismos para Cobrir o Déficit
O déficit orçamentário russo aumentou significativamente, impulsionado pelos altos gastos militares e pelo crescimento econômico limitado pelas sanções ocidentais, pelas altas taxas de juros aplicadas ao setor não militar, pela escassez de mão de obra e pelos ataques ucranianos a refinarias de petróleo.
No cenário base, a consultoria Macro-Advisory Ltd. aponta que a Rússia possui financiamento para cobrir o déficit em 2027 e 2028 — mas isso ocorrerá à custa de aumentos de impostos e de maiores encargos para famílias e empresas, com menos recursos disponíveis para desenvolvimento econômico e infraestrutura. Em um cenário adverso, caso ocorra uma queda nos preços globais de energia ou uma erosão da confiança no sistema financeiro, as reservas russas poderiam se esgotar já no início de 2028, forçando medidas ainda mais drásticas.
O governo russo não enfrenta uma crise financeira imediata, mas sim uma erosão gradual do bem-estar público. A economia está se tornando cada vez mais voltada para o financiamento militar, com o restante do setor privado lutando para se manter.
Implicações para Empresas e Cidadãos
As medidas fiscais têm consequências diretas para diferentes grupos. As empresas mineradoras enfrentarão redução em sua lucratividade, o que pode impactar investimentos futuros. Cidadãos com rendimentos de poupança e investimentos verão sua renda líquida diminuir, com potencial efeito sobre o consumo interno.
Para o governo, as novas taxas representam uma tentativa de equilibrar as contas públicas sem recorrer a cortes nos gastos sociais — ao menos por ora. A situação levanta questões sobre a sustentabilidade de longo prazo de uma economia cada vez mais dependente do setor militar em detrimento do desenvolvimento civil.
A apreensão de ativos de empresas estrangeiras — como a subsidiária da alemã Metro — sugere que o Kremlin pode estar antecipando acordos para liberar ativos russos congelados no exterior. O movimento, porém, também aumenta o risco de que o Ministério das Finanças passe a enxergar empresas estrangeiras remanescentes como fontes adicionais de receita.
Perspectivas e Riscos
As fontes de financiamento da Rússia são estruturalmente limitadas: o país não pode acessar mercados internacionais de títulos devido às sanções, e os recursos domésticos já foram amplamente utilizados — seja por meio da emissão de títulos para bancos russos ou do Fundo Nacional de Riqueza.
Um cenário extremo envolveria a imposição de empréstimos compulsórios a bancos, o que poderia desestabilizar o sistema financeiro. A margem de manobra do Kremlin é estreita, e qualquer choque adverso poderia rapidamente romper o frágil equilíbrio fiscal atual.
A busca por financiamento para o esforço de guerra continua a moldar a política econômica russa, com o Kremlin demonstrando disposição em ampliar a carga tributária sobre setores específicos e sobre poupadores para manter suas operações militares. A sustentabilidade dessa abordagem a longo prazo, no entanto, permanece uma questão em aberto — com potenciais consequências para o desenvolvimento econômico e o bem-estar da população.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





