Rahim Fortune percorre as estradas do Texas com um SUV de 1998, uma câmera analógica e um pano para enxugar o suor sob o calor implacável do Sul. Entre o verão de 2024 e o inverno de 2025, ele dedicou-se a registrar a vida comunitária em cidades como Dallas, Houston e Austin, em um projeto comissionado pela organização sem fins lucrativos Documentary Arts. O trabalho, intitulado "Between a Memory and Me", não é apenas um registro documental, mas uma resposta direta ao vasto acervo do Texas African American Photography Archive. Ao capturar desfiles de Juneteenth, rodeios e cultos em igrejas batistas, Fortune busca ancorar a experiência negra contemporânea em uma linhagem histórica, evitando a superfície do instantâneo em favor de uma observação paciente e profundamente humana.
A construção de uma nova memória visual
A fotografia sempre manteve uma relação tensa com a verdade, oscilando entre o registro objetivo e a interpretação subjetiva. Para Fortune, o desafio de dialogar com um arquivo histórico reside em como representar a comunidade sem reduzi-la a estereótipos ou a uma estética de pobreza. Ele cita a influência de fotógrafos que dedicaram décadas a um único bairro, como Milton Rogovin, como um norte ético. A leitura aqui é que o fotógrafo não se vê como um observador externo, mas como um participante ativo na reescrita de uma história que, por muito tempo, foi negligenciada pelos cânones oficiais. Ao focar em rituais de fé e celebrações anuais, ele eleva o cotidiano ao status de monumento cultural, reconhecendo que a dignidade da comunidade reside na repetição desses gestos de afeto e celebração.
O mecanismo da escuta e do afeto
O método de trabalho de Fortune é deliberadamente lento. Ele prefere o uso de filme analógico, uma escolha que impõe um ritmo de processamento e revelação, negando a gratificação imediata do digital. Essa escolha técnica reflete sua filosofia: a de que a fotografia exige uma conexão real entre quem fotografa e quem é fotografado. Ele se descreve como um "wallflower" — alguém que ocupa pouco espaço, evita a direção forçada e busca capturar o espírito humano em momentos de vulnerabilidade e beleza. O mecanismo por trás de sua lente é a reciprocidade; ele frequentemente retorna aos mesmos lugares, acompanhando o crescimento de jovens em desfiles ou a continuidade de tradições religiosas, transformando o ato de fotografar em um compromisso de longo prazo com as pessoas retratadas.
Tensões entre o indivíduo e a coletividade
A obra de Fortune também reflete sua própria trajetória pessoal, marcada por perdas precoces e pela vivência em um território de fronteiras culturais, como alguém de ascendência Chickasaw e negra. Ele admite que a fotografia é, para ele, uma forma de lidar com a dor e a finitude. Ao transitar entre o moderno e o tradicional, o fotógrafo questiona se existe, de fato, um lugar de pertencimento absoluto. Suas imagens, no entanto, sugerem que a resposta para essa angústia está na própria comunidade. Para os reguladores da cultura e historiadores, o trabalho serve como um lembrete de que a representação visual é uma ferramenta de poder, e que a maneira como uma cultura se vê e se documenta define sua sobrevivência diante da erosão do tempo.
O futuro da imagem como arquivo
O que permanece incerto é como as futuras gerações interpretarão essas imagens em um mundo cada vez mais saturado por uma estética de virilidade digital. Fortune nota que a consciência de ser fotografado mudou drasticamente; as pessoas hoje são muito mais cientes da disseminação online de suas imagens. O desafio para o fotógrafo contemporâneo, portanto, é encontrar a verdade em um cenário onde a performance é constante. Observar daqui para frente exigirá atenção à forma como esses arquivos se comportam ao longo das décadas, e se a profundidade do olhar analógico de Fortune conseguirá resistir ao desgaste do esquecimento digital.
O trabalho de Rahim Fortune nos convida a considerar a fotografia não como um fim, mas como um meio de manter viva a chama da memória familiar e cultural. Em um estado vasto e complexo como o Texas, onde as histórias de opressão e de triunfo se entrelaçam, a lente de Fortune atua como um espelho que, em vez de apenas refletir, ajuda a moldar a identidade de quem se vê nele. Resta saber se o futuro guardará o mesmo apreço pela paciência que ele dedica ao presente. Com reportagem de Brazil Valley
Source · Aperture





