A Raízen oficializou a venda de seus ativos downstream na Argentina para a trader suíça Mercuria Energy e a holding argentina Integra Capital. O negócio, fechado na madrugada desta quinta-feira, envolve um montante de US$ 1,42 bilhão, valor que será pago em dinheiro no fechamento da transação, sujeito a ajustes habituais de caixa e dívida, conforme comunicado ao mercado.
A operação engloba ativos estratégicos, incluindo a refinaria de Dock Sud, que detém cerca de 14% da capacidade produtiva de combustíveis do país, além de uma rede de 894 postos sob a bandeira Shell. A transação também contempla uma fábrica de lubrificantes e terminais de distribuição, consolidando a saída da companhia brasileira de um segmento relevante no mercado argentino.
Contexto da operação e ativos envolvidos
Os ativos vendidos pela Raízen representam uma fatia significativa do setor de combustíveis na Argentina. Com 17,9% de market share na distribuição, a rede de postos Shell posicionava a empresa como a segunda maior operadora do país, atrás apenas da estatal YPF. A refinaria de Dock Sud, por sua vez, é um pilar da infraestrutura de refino local, tornando-se um ativo cobiçado por players que buscam escala regional.
A Mercuria, uma das maiores traders de commodities do mundo, já possuía uma presença consolidada na Argentina por meio da Phoenix Resources, com foco em exploração em Vaca Muerta. A parceria com a Integra Capital, liderada pelo empresário José Luis Manzano, reforça a estratégia da Mercuria de integrar verticalmente suas operações, indo da extração de gás e petróleo não convencional até o refino e a distribuição final ao consumidor.
Dinâmica financeira da Raízen
A venda dos ativos argentinos não é um movimento isolado, mas parte de uma estratégia mais ampla de desalavancagem da Raízen. A empresa enfrenta um cenário de pressão financeira, com uma dívida total que atinge a marca de R$ 65 bilhões. A busca por liquidez é central para que a companhia consiga viabilizar seu plano de recuperação extrajudicial junto aos credores.
O cronograma da empresa é apertado, com o prazo limite para o fechamento do acordo de reestruturação fixado para 8 de junho. A expectativa da administração é obter a adesão de pelo menos 70% dos credores. A alienação dos ativos na Argentina, portanto, funciona como uma medida de saneamento necessária para reduzir o peso do passivo e garantir a sustentabilidade das operações principais da companhia no Brasil, focadas em açúcar, etanol e bioenergia.
Implicações para o mercado de energia
Para o mercado argentino, a mudança de controle sinaliza uma consolidação sob players com maior apetite por risco e integração vertical. A entrada da Mercuria em toda a cadeia de valor — da produção ao varejo — altera o equilíbrio competitivo frente à YPF. Reguladores e concorrentes observarão de perto como essa nova estrutura de capital afetará a oferta e os preços dos combustíveis no país, que historicamente sofrem com volatilidade política e econômica.
Para o ecossistema brasileiro, a saída da Raízen da Argentina reforça uma tendência de foco no core business doméstico em momentos de crise de liquidez. O mercado financeiro local, que acompanha de perto a reestruturação da dívida da empresa, interpreta o movimento como um sinal positivo de disciplina na gestão de portfólio, embora o desinvestimento em ativos estratégicos sublinhe a gravidade do aperto financeiro enfrentado.
Perspectivas e incertezas
O sucesso da transação ainda depende do cumprimento de condições precedentes e da obtenção de autorizações regulatórias e judiciais na Argentina. O mercado aguarda a confirmação do fechamento, que a empresa espera ocorrer ainda dentro da atual safra agrícola. A eficácia da venda em aliviar a pressão sobre o balanço da Raízen será medida pela capacidade da empresa em utilizar os recursos para reduzir o endividamento de curto prazo.
A atenção agora se volta para a assembleia de credores e para a viabilidade do plano de recuperação extrajudicial. A venda dos ativos argentinos remove uma variável de incerteza, mas o sucesso da reestruturação dependerá da aceitação definitiva dos termos propostos aos credores nos próximos dias. O mercado segue monitorando a capacidade da gestão em equilibrar a operação operacional com os desafios impostos pela estrutura de capital.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Bloomberg Línea





