Um intrincado esquema de influência política e articulação corporativa emergiu nos bastidores da tentativa de aprovação do 'Protect College Sports Act' (PCSA) no Senado dos Estados Unidos. Emails obtidos pelo Front Office Sports, através de solicitações de registros públicos a universidades como a da Carolina do Norte, Florida State e Louisville, revelam uma rede de contatos que se estende por figuras proeminentes da política conservadora, executivos de grandes empresas e líderes do esporte universitário. O objetivo central era impulsionar a legislação que visa estabelecer regras nacionais para a compensação, elegibilidade e transferências de atletas universitários, ao mesmo tempo em que concede proteções antitruste à NCAA, conferências e instituições.

A campanha, liderada pela Saving College Sports (SCS), uma organização criada pelo bilionário texano Cody Campbell, contou com a participação ativa de Dary Stone, um executivo imobiliário de Dallas e ex-presidente do conselho da Baylor University. Stone orquestrou uma série de comunicações com figuras influentes, incluindo David McIntosh, presidente do Club for Growth e cofundador da Federalist Society, e Malcolm Turner, vice-presidente sênior de desenvolvimento corporativo e estratégia da DraftKings. Esses indivíduos foram convidados para uma chamada de estratégia em 4 de agosto com o Senador Eric Schmitt (R-Mo.), um dos patrocinadores do projeto de lei. O envolvimento de McIntosh e Turner na articulação para a aprovação do PCSA não havia sido divulgado anteriormente, oferecendo um vislumbre raro das operações e das profundas conexões políticas da SCS.

Conexões Políticas e Corporativas

A articulação em torno do PCSA expõe a intersecção entre a política conservadora americana e o mundo do esporte universitário. David McIntosh, uma figura central na política conservadora, que lidera o Club for Growth desde 2015 e tem laços diretos com o ex-presidente Donald Trump, demonstrou um interesse significativo na legislação. Seus e-mails indicam uma participação contínua nas comunicações da SCS ao longo do verão, apesar de sua experiência prévia não estar diretamente ligada ao esporte universitário. O Club for Growth, um grupo de advocacy conservador influente, tem um super PAC com o objetivo de gastar US$ 175 milhões nesta temporada para apoiar candidatos republicanos ao Congresso. A participação de McIntosh sugere uma estratégia de alavancagem política que transcende as fronteiras tradicionais do advocacy conservador.

Paralelamente, a presença de Malcolm Turner, executivo da DraftKings, levanta questões sobre os interesses da indústria de apostas esportivas na legislação. Turner, que também atua como presidente do conselho da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, utilizou seu e-mail corporativo da DraftKings para participar das discussões da SCS, apesar de afirmar que o fazia em sua capacidade como líder universitário. Sua nomeação para o conselho da UNC já havia gerado controvérsia em 2021, com o membro Art Pope expressando preocupações sobre a adequação de um executivo de uma empresa que promove apostas em esportes universitários. A participação de Turner em discussões estratégicas para a aprovação de uma lei que pode impactar diretamente a indústria de apostas esportivas, ao mesmo tempo em que representa uma instituição de ensino, destaca a complexidade e os potenciais conflitos de interesse envolvidos.

Mecanismos de Lobby e Influência

A estratégia da Saving College Sports envolvia o fornecimento de modelos de lobby para serem enviados aos senadores, atualizações constantes sobre o andamento da campanha e apelos diretos aos destinatários para que contatassem líderes universitários e senadores. Uma carta datada de 1º de junho, redigida internamente pela SCS e assinada por 85 líderes universitários, foi enviada aos quatro patrocinadores do projeto de lei no Senado, elogiando seus esforços em busca de um quadro "bipartidário". No entanto, as mensagens obtidas revelam que a campanha foi impulsionada significativamente por grandes doadores republicanos. Uma análise de registros da Comissão Eleitoral Federal (FEC) mostrou que pelo menos seis pessoas na lista de distribuição principal de Stone haviam doado mais de US$ 500.000 a candidatos e comitês republicanos desde 2017.

Em junho, Stone e Campbell fizeram doações combinadas de US$ 30.000 ao Winning For America Fund, um comitê conjunto de arrecadação para o Senador Schmitt, que cinco semanas depois liderou uma chamada de estratégia para angariar apoio ao projeto. Cody Campbell, por sua vez, já havia doado mais de US$ 2,2 milhões a candidatos e comitês republicanos desde janeiro de 2025, incluindo US$ 500.000 ao super PAC pró-Trump MAGA Inc. O próprio Dary Stone contribuiu com mais de US$ 180.000 para candidatos e comitês republicanos federais desde 2017. Essa demonstração financeira sugere uma estratégia de influência que alavanca o poder econômico para moldar a legislação.

Implicações e Stakeholders

A aprovação do PCSA, que eventualmente passaria no Senado por 77-22, tem implicações significativas para diversos stakeholders no ecossistema do esporte universitário. Para os atletas, os críticos argumentam que a lei restringe seu potencial de ganhos e direitos legais, sem lhes conceder um papel significativo na negociação das regras que os afetam. Por outro lado, os defensores da lei, como a SCS, argumentam que ela trará estabilidade a um cenário caótico, protegendo a integridade do esporte universitário e garantindo um quadro regulatório claro. A concessão de proteção antitruste à NCAA e às instituições é vista por alguns como um escudo contra litígios e por outros como uma forma de manter o status quo, limitando a autonomia dos atletas.

A participação de figuras políticas de peso e de empresas com interesses diretos no mercado de apostas esportivas levanta questionamentos sobre a independência do processo legislativo. A conexão da SCS com o Senador Ted Cruz, que defendeu a legislação em uma aparição na ESPN, e a atuação de seu diretor executivo, David Polyansky, ex-chefe de gabinete de Cruz, reforçam a percepção de uma campanha de lobby multifacetada. Para o Brasil, onde o debate sobre a regulamentação do mercado de apostas esportivas e a profissionalização do esporte universitário ganha força, o modelo de articulação política e os interesses em jogo nos EUA podem servir como um estudo de caso sobre os desafios e as dinâmicas envolvidas na criação de marcos regulatórios para o esporte.

Perguntas em Aberto e Perspectivas Futuras

Embora o PCSA tenha avançado no Senado, sua jornada não está completa, pois aguarda votação na Câmara dos Representantes. A natureza da rede de influência por trás de sua aprovação levanta questões sobre a sustentabilidade e a equidade do modelo esportivo universitário americano. Será que a legislação, tal como aprovada, reflete genuinamente os interesses de todos os envolvidos, ou é um reflexo da influência desproporcional de determinados grupos e interesses financeiros? A participação de executivos de apostas esportivas e a forte inclinação política da campanha de lobby sugerem que a busca por estabilidade e proteção pode ter vindo ao custo de uma maior equidade para os atletas.

A forma como a Câmara dos Representantes abordará o PCSA, e se novas revelações sobre a articulação por trás da lei virão à tona, serão pontos cruciais a serem observados. A resistência inicial de conferências importantes como a SEC e a Big Ten, que posteriormente mudaram de posição, indica a complexidade das negociações e a capacidade de persuasão dos proponentes. O futuro do esporte universitário nos EUA, e a forma como os atletas serão compensados e representados, dependerá dos próximos capítulos desta saga legislativa e da transparência dos processos decisórios.

A aprovação do 'Protect College Sports Act' no Senado, impulsionada por uma rede diversificada de atores políticos e corporativos, marca um momento significativo na evolução do esporte universitário americano. A legislação, que agora aguarda a decisão da Câmara, promete redefinir o cenário de compensação de atletas e a estrutura regulatória da NCAA, mas as revelações sobre a articulação por trás de sua aprovação levantam debates importantes sobre influência, transparência e equidade no esporte.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Front Office Sports