O consumo de antibióticos, embora essencial para combater infecções bacterianas, pode ter um efeito colateral indesejado: a redução da diversidade do microbioma intestinal. Essa comunidade complexa de bactérias desempenha um papel vital na digestão, saúde física e mental. A disrupção causada por antibióticos pode levar a problemas digestivos, fadiga e o agravamento de condições de pele. Para pacientes com câncer, a manutenção de um microbioma diversificado é ainda mais crítica, pois estudos associam maior diversidade a melhores taxas de sobrevivência.

Uma nova pesquisa, liderada por Jonathan Peled no Memorial Sloan Kettering Cancer Center em Nova York, investigou essa relação em 158 pacientes com cânceres sanguíneos. Durante o tratamento com quimioterapia e antes de um transplante de células-tronco, esses pacientes necessitaram de antibioticoterapia. Os pesquisadores monitoraram as mudanças em seus microbiomas intestinais através de amostras de fezes e, crucialmente, registraram detalhadamente suas dietas. Foram coletados dados de mais de 40.000 itens alimentares, proporcionando um nível de detalhe raramente alcançado em pesquisas nutricionais.

O impacto do açúcar no microbioma

Ao analisar os dados, a equipe identificou um padrão preocupante: indivíduos que consumiam mais alimentos ricos em açúcar enquanto tomavam antibióticos apresentavam um microbioma menos diverso. Especificamente, o uso de antibióticos nas 48 horas anteriores à coleta de uma amostra de fezes estava associado a uma queda na diversidade. Para cada aumento de 100 gramas no consumo de alimentos ou bebidas açucaradas nesse período – o equivalente a um milkshake grande –, a diversidade bacteriana total diminuiu, em média, 24% a mais. Essa combinação de dieta açucarada e antibióticos também favoreceu o crescimento de Enterococcus faecium, uma bactéria que pode atuar como patógeno e causar infecções hospitalares graves.

Mecanismos de ação: o "combustível para foguetes"

Jonas Schluter, membro da equipe, explica que o açúcar agrava os problemas causados pelos antibióticos. Ao eliminar muitas bactérias benéficas, os antibióticos desequilibram o microbioma, deixando poucas cepas remanescentes. "Elas sobreviveram ao ataque e nós as estamos alimentando com combustível para foguetes", afirma Schluter, referindo-se ao efeito do açúcar em impulsionar o crescimento dessas bactérias. Nicola Segata, da Universidade de Trento, concorda que o açúcar pode favorecer patógenos que prosperam nesse nutriente, possivelmente de forma direta ou indireta, ao prejudicar as bactérias benéficas que competem por fibras para se recuperar do estresse causado pelos antibióticos.

Experimentos com camundongos corroboraram essa hipótese. Animais tratados com o antibiótico biapenem e submetidos a uma dieta rica em sacarose apresentaram um aumento significativo na população de Enterococcus em seus intestinos. Em contraste, camundongos com dieta açucarada, mas sem antibióticos, mantiveram sua diversidade bacteriana. Peled observou efeitos semelhantes quando os camundongos consumiram um smoothie comercial rico em frutose.

Implicações clínicas e recomendações dietéticas

As descobertas têm implicações importantes, tanto dentro quanto fora do ambiente hospitalar. Para pacientes com câncer, a recomendação de smoothies ou milkshakes para aumentar a ingestão nutricional pode precisar ser reavaliada se o paciente estiver em uso de antibióticos. Fora dos hospitais, a pesquisa sugere que limitar a ingestão de alimentos açucarados enquanto se toma antibióticos pode ser uma estratégia viável e econômica para proteger o microbioma. Peled ressalta que essa prática se alinha com as recomendações gerais de saúde para evitar o consumo excessivo de açúcar.

Perguntas em aberto e o futuro da proteção microbiana

Embora o estudo aponte uma forte correlação entre o consumo de açúcar e a saúde do microbioma sob tratamento antibiótico, ainda há nuances a serem exploradas. A pesquisa abre caminho para futuras investigações sobre a dosagem ideal de açúcares e fibras, e o momento exato da intervenção dietética para maximizar os benefícios. A capacidade de os bebês adquirirem novas cepas bacterianas mais rapidamente após um curso de antibióticos, como demonstrado por Segata, sugere que o período pós-antibiótico também é uma janela crítica para a recuperação do microbioma, enfatizando a importância de uma dieta rica em plantas para incentivar o retorno de bactérias benéficas.

A relação entre dieta, antibióticos e o ecossistema microbiano intestinal é complexa e multifacetada. A nova evidência sugere que escolhas alimentares conscientes, especialmente a redução do consumo de açúcar, podem ser uma ferramenta poderosa e acessível para mitigar os efeitos negativos dos antibióticos, promovendo um microbioma mais resiliente e, consequentemente, uma melhor saúde geral. A comunidade científica continuará a investigar as melhores estratégias para otimizar a saúde intestinal em diversas condições clínicas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · New Scientist