A reforma tributária, em sua fase de transição e testes em 2026, apresenta um novo vetor de risco para a inflação brasileira em 2027. Estimativas preliminares da consultoria ROIT, especializada em infraestrutura e tecnologia tributária, sugerem que falhas na recalibração de preços pelas empresas durante essa mudança podem adicionar até 0,15 ponto percentual ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) no próximo ano. Este cenário se soma a outros riscos já conhecidos, como o El Niño e a volatilidade cambial, intensificando a preocupação com a estabilidade de preços.

O cerne da questão reside na complexidade da formação de preços em um ambiente de impostos em constante mudança. Atualmente, empresas embutem tributos em seus custos, e nem sempre conseguem recuperar integralmente esses valores. Com a reforma, a expectativa é de que a ampliação dos créditos tributários — valores que podem ser descontados do imposto devido — reduza os custos. No entanto, o risco é que, em vez de repassar essa economia ao consumidor, as empresas mantenham os preços antigos, incorporando o novo tributo sem a devida dedução do custo anterior. Esse efeito cascata, onde cada etapa da cadeia produtiva pode reter parte da economia, dificulta a mensuração exata do impacto final. Caroline Souza, vice-presidente de Operações da ROIT, ressalta a importância da negociação entre empresas, onde a eficiência de uma pode se traduzir em melhores preços para a outra.

A complexidade da transição tributária

A ROIT analisou dados de 65 grupos empresariais e 295 mil fornecedores, totalizando R$ 608,8 bilhões em compras anuais. Nessa análise, a consultoria identificou R$ 16,35 bilhões em tributos incorporados aos custos que poderiam ser afetados pela ampliação dos créditos. A partir daí, projetou o potencial de pressão de 0,15 ponto sobre o IPCA em 2027, embora os detalhes de como esse valor se traduz em impacto sobre a cesta de consumo ainda não tenham sido totalmente detalhados. A complexidade é acentuada pela alíquota da nova Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), que substituirá PIS e Cofins a partir de 2026, ainda não definida. A substituição gradual do ICMS e ISS pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) ocorrerá apenas entre 2029 e 2033. Portanto, para fixar preços em 2027, as empresas precisam desconsiderar os tributos federais atuais, incorporar a CBS e avaliar quais despesas gerarão créditos. A simulação da ROIT aponta que o resultado final — se haverá aumento ou redução de custo — varia significativamente dependendo da estrutura tributária atual de cada empresa e de sua capacidade de recuperação de despesas.

Riscos e oportunidades na precificação

A pesquisa da ROIT revela que 44% das empresas entrevistadas apontam a falta de clareza na formação de preços e no repasse de créditos como seu principal gargalo operacional. Essa incerteza pode levar a aumentos de preço desnecessários. Carolina Verginelli, sócia de Consultoria Tributária da Deloitte, corrobora essa visão, indicando que alguns clientes já identificaram em simulações a possibilidade de reduzir preços sem sacrificar margens de lucro. Para essas empresas, a queda pode ser uma estratégia para ganhar mercado. Contudo, outros setores podem enfrentar um cenário de aumento de carga tributária. Prestadoras de serviço, por exemplo, que hoje pagam PIS/Cofins a 3,65% e têm a folha de pagamento como principal despesa, podem não conseguir compensar a nova cobrança da CBS, pois salários não geram créditos. Nesses casos, a opção será entre repassar parte da diferença ao cliente ou absorver a margem menor.

Lições da Índia e o cenário brasileiro

A experiência indiana com a implementação do Imposto sobre Bens e Serviços (GST) em 2017 oferece um paralelo preocupante. Pesquisas indicaram um efeito de alta sobre a inflação geral, especialmente nos alimentos, apesar da reforma ter sido concebida para eliminar impostos acumulados. O governo indiano tentou mitigar isso com regras específicas para o repasse de benefícios, exigindo que reduções tributárias fossem refletidas nos preços. No Brasil, essa abordagem de interferência direta nas negociações comerciais durante a transição não tem sido seguida. Verginelli sugere que, sem uma pressão ativa da cadeia produtiva para repassar economias, os aumentos podem chegar integralmente ao consumidor final. A alternativa de um acompanhamento governamental dos preços e a investigação de discrepâncias é vista como insuficiente para resolver a incerteza antes da virada do ano.

O fator eleitoral e a incerteza futura

A proximidade das eleições adiciona uma camada de complexidade à já intrincada transição tributária. A expectativa de adiamentos ou revisões da reforma, alimentada por discursos políticos, pode levar empresas, especialmente as de menor porte, a adiar a revisão de contratos e os cálculos necessários para a formação de preços em 2027. Souza, da ROIT, alerta que essa inércia preparatória pode comprometer o repasse de reduções de custo que, de outra forma, ajudariam a evitar pressões inflacionárias adicionais. Embora mudanças amplas no sistema tributário exijam aprovação legislativa complexa, a mera especulação política pode paralisar a adaptação empresarial. Sem a definição da alíquota da CBS e sem a prática de novos preços pelas empresas, o impacto real da reforma no IPCA de 2027 e o potencial de redução de preços para o consumidor permanecem em aberto.

A incerteza sobre a alíquota da CBS e a falta de clareza sobre como as empresas recalcularão seus preços para 2027 criam um cenário de imprevisibilidade para a inflação. A combinação de riscos, a complexidade da transição e a influência do cenário eleitoral indicam que o impacto da reforma tributária na economia brasileira ainda é uma equação com muitas variáveis em aberto, exigindo atenção contínua.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times