A Hayward Gallery, em Londres, terá sua fachada brutalista transformada em uma tela gigante a partir de setembro. A artista suíça Renée Levi aplicará uma intervenção artística ousada, intitulada 'September', utilizando malha industrial e cores fluorescentes vibrantes — verdes, rosas, azuis e laranjas — sobre um dos ícones arquitetônicos da South Bank, conhecido por sua superfície de concreto cinza.

Esta comissão, uma colaboração entre a Hayward Gallery e a Audemars Piguet Contemporary, marcará a primeira vez que a marca de relógios suíça, conhecida por seu programa de arte desde 2012, comissiona uma obra de pintura. A escolha é particularmente adequada, dado que Levi expande o meio para além de uma tela convencional. Em vez de apresentar um objeto isolado, ela interagirá diretamente com a arquitetura, integrando a janela retangular da Hayward — apelidada de 'olho' do edifício — como parte intrínseca da composição.

A Pintura como Ação: Levi e a Arquitetura

A abordagem de Levi, que considera a pintura uma ação moldada pelo corpo, material e local, será evidente em 'September'. Seus gestos se expandirão verticalmente, mas permanecerão conectados ao alcance físico do pintor. A Hayward Gallery, com seu concreto exposto, projeções e linguagem geométrica forte, deixará de ser um mero pano de fundo para se tornar um material adicional na obra. O edifício, já uma presença escultural por si só, receberá uma nova e temporária pele.

A superfície da malha industrial, utilizada pela primeira vez por Levi, é um elemento chave. Frequentemente associada a publicidade e sinalização em larga escala, a malha permite a passagem de ar e sustentará as marcas fluorescentes. Essa escolha subverte sutilmente um material acostumado a vender produtos, transformando-o em arte. Essa experimentação material se alinha diretamente com a abordagem da Audemars Piguet Contemporary, que incentiva artistas a explorar novos territórios em suas práticas.

Diálogo com o Espaço Urbano e o Tempo

'September' recusará uma visão frontal única, apresentando-se de forma distinta dependendo da distância, ângulo, luz e sombra. A obra se integrará à circulação constante de pessoas na South Bank, refletindo a instabilidade e a mudança. Levi associa essa característica ao próprio título, 'September', um mês de luz e ritmos metropolitanos em transição. A obra ficará em exibição de 18 de setembro a 15 de novembro de 2026, tornando-se audiência para transeuntes, turistas e espectadores casuais.

A comissão estende o programa da Audemars Piguet Contemporary, que já colaborou com artistas como Cao Fei e Tomás Saraceno. Para Levi, 'September' se somará a uma série de experimentos em escala arquitetônica, após passagens pelo Palais de Tokyo e pela Lyon Biennale.

Implicações para a Arte Pública

A intervenção de Renée Levi na Hayward Gallery levanta questões importantes sobre a relação entre arte contemporânea e espaços arquitetônicos icônicos. Ao utilizar a fachada como tela, a artista não apenas adicionará cor e forma a uma estrutura existente, mas também a recontextualizará, convidando o público a reavaliar a relação entre o construído e o efêmero. A escolha de materiais como a malha industrial, com suas conotações comerciais, adiciona uma camada de crítica sutil, questionando a apropriação de superfícies urbanas para fins artísticos.

A colaboração com a Audemars Piguet Contemporary também destaca o crescente interesse de marcas de luxo em patrocinar e comissionar projetos de arte. Essa parceria permite que artistas como Levi tenham acesso a recursos e plataformas de grande visibilidade, expandindo os limites de suas práticas. Ao mesmo tempo, levanta debates sobre a influência corporativa no mundo da arte e a busca por autenticidade em um cenário cada vez mais comercial.

Perguntas em Aberto sobre o Futuro da Pintura

A obra 'September' desafia a própria definição de pintura, empurrando-a para fora dos limites tradicionais da galeria e da tela. A forma como Levi integra o espaço arquitetônico e a temporalidade da instalação sugere um futuro onde a arte pública e a arquitetura se fundem de maneiras cada vez mais dinâmicas. A pergunta que permanece é como outras instituições e artistas responderão a essa expansão do meio pictórico.

A transitoriedade da obra, com sua remoção prevista para novembro de 2026, também é um ponto crucial. Isso reforça a natureza efêmera da arte contemporânea e a importância de experienciá-la no momento presente. O desaparecimento das cores vibrantes deixará a lembrança de uma intervenção audaciosa, mas também abrirá espaço para novas reflexões sobre o que permanece e o que se vai em paisagens urbanas.

A transformação da Hayward Gallery por Renée Levi é um testemunho do poder da arte em reinterpretar e revitalizar espaços urbanos. A fusão de sua visão artística com a arquitetura brutalista criará um diálogo fascinante, provocando o público a olhar para o ambiente construído com novos olhos e a considerar o potencial ilimitado da expressão artística.

Com reportagem de Brazil Valley

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