A Revolut, gigante britânica de serviços financeiros digitais, anunciou um plano ambicioso para a América Latina, comprometendo um investimento mínimo de US$ 1 bilhão na região. O Brasil desponta como o mercado de maior potencial para a expansão da fintech, que vê na diversificação geográfica e de produtos uma estratégia chave para seu crescimento global. O valor anunciado é considerado um piso, com potencial de aumento conforme os projetos avançam e novas oportunidades surgem.

A estratégia da Revolut na América Latina se alinha com sua meta global de expansão, que prevê que até 2027 um em cada quatro novos clientes venha da região e dos Estados Unidos. O investimento de US$ 1 bilhão será distribuído ao longo de alguns anos e cobrirá os países onde a empresa já opera ou planeja sua entrada: Brasil, México, Colômbia, Peru e Argentina. Carlos Urrutia, gerente-geral de expansão internacional da Revolut, destacou que a alocação dos recursos é revista trimestralmente, permitindo agilidade para acelerar investimentos em projetos promissores, sustentada por um balanço financeiro sólido.

Expansão Estratégica e Critérios de Seleção

A escolha dos países para este ciclo de expansão não foi aleatória. A Revolut baseou sua decisão em quatro pilares: reguladores abertos a novas entrantes, uma população jovem e numerosa, alta propensão ao uso de serviços digitais e fortes vínculos com mercados onde a empresa já possui operações. A América Latina atendeu a todos esses critérios, impulsionando a fintech a destinar recursos significativos para a região. Atualmente, a Revolut opera em cerca de 40 mercados globais, com Brasil e México sendo os únicos na América Latina, mas a projeção de 25% de novos cadastros globais vindos da região em 2027 evidencia seu peso estratégico crescente.

Os planos de lançamento variam entre os países. Na Colômbia, a Revolut já obteve autorização bancária completa e está em fase final de testes antes da abertura ao público. No Peru, a primeira etapa da autorização foi concedida, com a empresa aguardando para a auditoria da operação. Na Argentina, a Revolut concluiu a transferência de controle do Banco Cetelem, adquirido do BNP Paribas, que será renomeado para Revolut Bank Argentina. O lançamento no país vizinho é esperado para o segundo semestre de 2027, com a intenção de oferecer uma gama completa de produtos desde o início, replicando o modelo de sucesso do México.

O Modelo de Crescimento e a Preferência pelo Desenvolvimento Interno

O sucesso da operação mexicana, que alcançou 1 milhão de clientes em oito meses com uma licença bancária e ampla oferta de produtos, serve de modelo para os demais mercados. Ignacio Zunzunegui, head de crescimento da Revolut para as Américas e o sul da Europa, ressalta que o lançamento com a maior variedade de produtos possível é crucial para o crescimento acelerado e a lucratividade. Fora dos cinco países prioritários, o Chile é o próximo mercado de interesse na região, embora sem prazos definidos.

A Revolut demonstra uma forte preferência pelo desenvolvimento interno de suas tecnologias e produtos. A empresa avalia oportunidades de fusões e aquisições (M&A), mas Glauber Mota, CEO da Revolut no Brasil, explica que a estratégia primária é construir tudo internamente para garantir controle e aderência aos padrões de qualidade. Aquisições são consideradas apenas quando aceleram significativamente a entrada no mercado ou trazem uma tecnologia específica, como foi o caso da compra do banco inativo na Argentina, que evitou complexos processos de integração.

Implicações para o Mercado Brasileiro e o Futuro

No Brasil, a Revolut busca obter uma licença bancária plena, embora sem um prazo definido. A licença é vista como um passo para otimizar o balanço e a operação de crédito quando ela ganhar escala, não como uma necessidade imediata, já que a marca não utiliza o termo "banco" em sua comunicação local. O crédito, embora demandado pelos clientes, não é a base do negócio da Revolut, que o trata como um ganho adicional. A empresa avalia instrumentos como securitizações e venda de carteiras para gerenciar o risco, com uma relação empréstimos/depósitos atualmente baixa, indicando espaço para crescimento.

O Brasil já representa o maior mercado de expansão da Revolut e figura entre os três com maior crescimento dentro do grupo. A estrutura local, com cerca de 120 funcionários na instituição financeira regulada e 140 na empresa de tecnologia, não só atende ao mercado brasileiro, mas também presta serviços compartilhados a outros países, como o desenvolvimento de integrações de pagamentos para os Estados Unidos e demais países da América Latina. A estratégia de "construir a ponte primeiro" permite que operações subsequentes ganhem velocidade.

O futuro da Revolut na América Latina e, em particular, no Brasil, dependerá da sua capacidade de executar essa estratégia de expansão multifacetada. A empresa demonstra uma abordagem calculada, combinando investimento significativo com um foco em desenvolvimento interno e adaptação regulatória. A capacidade de inovar e de entregar uma gama completa de produtos de forma ágil será fundamental para consolidar sua posição em um mercado competitivo e em constante evolução.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Bloomberg Línea