A busca por segundas cidadanias e residências internacionais deixou de ser um movimento periférico entre os ultra-ricos para se tornar uma tendência consolidada nos Estados Unidos. Nuri Katz, fundador da Apex Capital Partners e veterano com 34 anos de atuação no setor de migração de investidores, afirma que o interesse vindo da América do Norte cresce mais rápido do que em qualquer outro país do mundo. Segundo reportagem da Fortune, o que antes era um nicho restrito agora ocupa o topo da lista de demandas de sua consultoria.

Katz, que viveu duas décadas em Moscou durante o colapso da União Soviética, observa paralelos preocupantes entre a dinâmica fiscal daquela época e a atual trajetória da dívida pública americana. Para o consultor, a percepção de risco entre os investidores de alta renda mudou: a preocupação com a estabilidade do dólar e o peso do endividamento nacional superou, pela primeira vez, as tensões puramente políticas como principal motor para a busca de ativos e residências fora das fronteiras dos EUA.

O peso da dívida e o trauma da inflação

O diagnóstico de Katz baseia-se na premissa de que a concentração excessiva de patrimônio em ativos denominados em dólares tornou-se um risco sistêmico para os investidores. Com uma dívida nacional que alcança a marca de US$ 39 trilhões, o consultor argumenta que o país enfrenta um dilema estrutural: ou a monetização da dívida via impressão de dinheiro — o que geraria inflação severa — ou a possibilidade de um default, cenário que ele descreve como o fim do atual sistema financeiro global.

Essa leitura encontra eco em vozes como a de Ray Dalio, fundador da Bridgewater Associates, que também tem alertado para os ciclos longos de endividamento de potências globais. Para Katz, a crença de que a produtividade impulsionada pela inteligência artificial será suficiente para crescer acima da dívida é uma ilusão. O executivo compara a situação atual ao que presenciou na Rússia dos anos 90, onde a hiperinflação corroeu o poder de compra e desestabilizou a estrutura social do país.

Mudança de perfil dos investidores

Os dados da Apex Capital Partners, obtidos por meio de uma pesquisa com 1.733 americanos de alta renda, revelam que 61% dos entrevistados considerariam deixar os EUA nos próximos cinco anos. O que surpreende os analistas é a motivação: ao contrário do passado, quando a migração de fortunas era um reflexo de instabilidade política, o cenário atual é impulsionado por uma combinação de custo de vida elevado e preocupações fiscais, atingindo investidores de ambos os lados do espectro ideológico.

O movimento sugere que a confiança nas instituições americanas está sendo testada por uma classe de indivíduos que, historicamente, sempre viu o país como um porto seguro. A percepção de que o dólar pode perder seu status de moeda de reserva global, embora ainda seja um tema em debate, já está induzindo esses investidores a buscar diversificação em euros, francos suíços ou ativos em outras jurisdições, tratando a segunda cidadania como uma forma de seguro patrimonial.

O novo mapa da mobilidade global

Historicamente, a Europa foi o destino preferencial, mas o cenário está em transformação. Com o endurecimento das regras para vistos de investimento em países como Portugal e Espanha, os investidores estão voltando seus olhos para novas fronteiras. Katz aponta o Caribe e, potencialmente, a Argentina — que planeja implementar um programa de cidadania por investimento — como os próximos centros de atração de capital, dada a proximidade geográfica e as reformas econômicas locais.

A União Europeia, por sua vez, é vista por Katz com cautela. Ele descreve o bloco como disfuncional e em estado de fluxo econômico, o que pode limitar o apelo de longo prazo para quem busca segurança real. A leitura aqui é que o mercado de migração de investidores está se tornando um termômetro da percepção global sobre a saúde das democracias ocidentais e suas respectivas economias.

Incertezas sobre o futuro do capital

O que permanece incerto é a magnitude do impacto dessa fuga de capital na economia doméstica americana. Embora a migração de indivíduos de alta renda não represente uma saída súbita de todo o patrimônio, ela sinaliza uma erosão gradual da confiança que pode ter efeitos cumulativos. Observar a evolução dessas políticas migratórias e a resiliência do dólar serão os pontos centrais para entender o próximo capítulo da economia global.

O cenário desenhado por Katz não é apocalíptico, mas aponta para uma realidade de crescente incerteza. A questão fundamental para os próximos anos reside em saber se os governos conseguirão reverter esse sentimento de desconfiança ou se a busca por optionalidade geográfica se tornará uma norma permanente para as elites globais. A história recente mostra que a mobilidade de ativos precede, muitas vezes, as grandes mudanças estruturais das nações.

O fenômeno da migração de fortunas reflete uma busca por liberdade em um mundo onde a dependência de um único Estado parece, para muitos, uma estratégia de risco crescente. A trajetória da dívida americana continuará sendo o principal indicador a ser monitorado, servindo como um lembrete de que, em finanças, a percepção de risco é frequentemente o primeiro passo para a mudança de comportamento.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune