A corrida pela superação das limitações de tempo na conservação de órgãos para transplante ganhou um novo fôlego com a recente conquista de pesquisadores da Universidade de Minnesota. Erik Finger e John Bischof lideraram uma equipe que conseguiu reativar um rim de porco após mais de um ano congelado a uma temperatura de -150°C. O órgão, ao ser reaquecido e ter as substâncias crioprotetoras removidas, retomou sua atividade, produzindo urina. Este avanço, detalhado em um estudo publicado em bioRxiv e ainda pendente de revisão por pares, sugere um futuro onde a escassez de órgãos para transplante possa ser drasticamente reduzida.
Um Salto na Conservação de Órgãos
A logística dos transplantes de órgãos sempre foi um desafio intrinsecamente ligado ao tempo. Órgãos doados possuem um período de viabilidade extremamente limitado após a retirada do doador, exigindo uma coordenação quase militar para que o órgão chegue ao receptor em condições ideais. A possibilidade de criar bancos de órgãos, onde estes possam ser armazenados por longos períodos, como defendido por Finger, mudaria radicalmente esse paradigma. Em vez de pacientes aguardarem ansiosamente pela disponibilidade de um órgão compatível, seriam os órgãos a aguardar pelos pacientes. Essa inversão de espera não só aliviaria a pressão sobre os sistemas de saúde, mas também permitiria um planejamento mais eficaz para o receptor, potencialmente reduzindo o risco de rejeição, embora essa hipótese ainda precise de comprovação científica robusta.
A Inovação por Trás do Reaquecimento
A chave para este avanço reside na capacidade de devolver calor ao órgão de maneira uniforme e controlada a partir de seu interior. O processo inicia-se com a substituição gradual do fluxo sanguíneo por uma mistura de crioprotectores, substâncias que impedem a formação de cristais de gelo, inimigos da integridade celular durante o congelamento. Este método, conhecido como vitrificação, é cuidadosamente controlado em termos de temperatura e pressão. Em seguida, nanopartículas de óxido de ferro são introduzidas nos vasos do rim. Ao serem expostas a um campo eletromagnético de radiofrequência, essas partículas geram calor internamente, promovendo um reaquecimento rápido e homogêneo. A equipe ajusta a potência para otimizar a velocidade, garantindo que o órgão atinja o estado vítreo estável antes de ser armazenado a -150°C. Após o período de conservação, um dispositivo de perfusão circula um líquido nutritivo, avaliando a funcionalidade do órgão fora do corpo.
Desafios e Próximos Passos
Embora o feito de reativar um rim de porco após mais de um ano congelado seja notável, a equipe reconhece que ainda há um longo caminho a percorrer. A viabilidade a longo prazo dos órgãos descongelados e a extensão de sua funcionalidade após o transplante são as próximas fronteiras a serem exploradas. Em testes preliminares, os rins transplantados em porcos recuperaram a circulação sanguínea e produziram urina em cerca de um minuto, mas a quantidade foi cerca de dois terços do esperado, e observaram-se lesões atribuídas aos crioprotectores. O órgão que permaneceu congelado por mais de um ano foi testado fora do corpo, e não em um transplante completo. A produção de urina é um indicador positivo, mas não garante a sobrevivência do receptor a longo prazo. Para que essa tecnologia se torne uma ferramenta clínica viável, será necessário comprovar a sobrevivência e a funcionalidade completa dos órgãos transplantados.
O Futuro dos Transplantes
O trabalho dos pesquisadores da Universidade de Minnesota abre um leque de possibilidades para o futuro da medicina de transplantes. A capacidade de armazenar órgãos por períodos prolongados poderia democratizar o acesso a transplantes, reduzir a mortalidade em listas de espera e otimizar o preparo dos receptores. No entanto, os desafios remanescentes, como a toxicidade dos crioprotectores e a necessidade de demonstrar a funcionalidade a longo prazo, exigirão mais pesquisa e desenvolvimento. A equipe planeja agora realizar transplantes com acompanhamento estendido, buscar alternativas menos tóxicas aos crioprotectores e, eventualmente, testar o método em rins humanos. A visão de bancos de órgãos, onde a oferta possa se adequar à demanda de forma mais eficiente, está um passo mais perto de se tornar realidade.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · El Confidencial — Tech





