O Supremo Tribunal Federal (STF) colocou em compasso de espera a definição sobre o futuro político do Rio de Janeiro. O presidente da Corte, ministro Edson Fachin, retirou da pauta desta quarta-feira o julgamento que estabeleceria o modelo da eleição para o mandato-tampão de governador. A justificativa formal foi a priorização de um caso sobre a Lei Maria da Penha e a agenda de posse no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

O adiamento, no entanto, acontece em um momento crucial. Já há uma maioria formada na Corte, com um placar de 4 a 1, a favor de uma eleição indireta, conduzida pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). A pausa processual, portanto, congela um resultado que parecia encaminhado, estendendo a interinidade no Palácio Guanabara e abrindo uma janela para novas articulações políticas.

O placar e a tese

Até o momento, o voto de quatro ministros — Luiz Fux, André Mendonça, Nunes Marques e Cármen Lúcia — converge para a solução que entrega aos deputados estaduais a responsabilidade de escolher o próximo governador. Esse caminho é visto como a solução pragmática e constitucionalmente prevista para vacâncias de poder que ocorrem na segunda metade do mandato, evitando o custo e o desgaste de uma nova campanha eleitoral em todo o estado.

O contraponto veio do relator, ministro Cristiano Zanin. Em seu voto, o único divergente até agora, ele defendeu a realização de eleições diretas. A tese de Zanin se baseia na origem da vacância: como a perda do cargo derivou de uma decisão da Justiça Eleitoral, a soberania popular deveria ser restabelecida, devolvendo aos eleitores o direito de escolher seu representante. É o embate clássico entre a estabilidade institucional e o princípio democrático.

Tempo político, vácuo institucional

Para os grupos que defendem uma consulta popular, o adiamento funciona como um balão de oxigênio. Embora o placar seja adverso, a ausência de uma decisão final permite que a pressão pública e a articulação nos bastidores continuem. Para a Alerj e os candidatos que já se movimentavam para uma disputa interna, a decisão do STF representa uma frustração e prolonga a incerteza.

Enquanto o Supremo não bate o martelo, o Rio de Janeiro permanece sob a gestão interina do desembargador Ricardo Couto, uma solução que, por natureza, limita a capacidade de planejamento e execução de políticas de longo prazo. A gestão da pauta do STF, ainda que por motivos legítimos, acaba por ter um impacto direto na governabilidade de um dos principais estados da federação, deixando a crise política local em fogo baixo, mas longe de ser resolvida.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times