A paisagem de prosperidade dos Estados Unidos, frequentemente celebrada como o pináculo do sucesso global, esconde uma corrente subterrânea de desespero que tem intrigado e preocupado a economista Carol Graham. Décadas dedicadas a medir a felicidade humana a levaram a um território mais sombrio: o do desespero. "Eu costumava trabalhar com felicidade e agora pareço trabalhar mais com desespero", confessou Graham em entrevista à Fortune. "Isso não é ótimo, mas é o estado em que nos encontramos." Sua jornada acadêmica, que começou com o estudo da pobreza na América Latina, agora se volta para as complexidades existenciais de como as sociedades ricas moldam o bem-estar de seus cidadãos, especialmente em um país onde a desigualdade pode transformar a própria riqueza em fonte de angústia.

O Paradoxo do Crescimento Infeliz

Graham, uma figura proeminente na Brookings Institution e na Universidade de Maryland, tem se debruçado sobre dados que pintam um quadro complexo. Sua pesquisa mais recente, aplicando a lente da felicidade e do desespero aos Estados Unidos, utiliza dados globais do Gallup World Poll. Entre 2006 e 2024, enquanto a renda nos EUA crescia, indicadores de confiança no governo e nas instituições caíam drasticamente. A parcela de americanos que se sentiam livres para escolher seu próprio caminho de vida também diminuiu significativamente. O estudo aponta para um fenômeno que Graham e seus coautores chamam de "o paradoxo do crescimento infeliz": os EUA convertem o crescimento econômico em bem-estar de forma menos eficiente do que a média dos países de alta e média renda. Essa desconexão entre a prosperidade material e a satisfação vital é o cerne de sua análise.

O Sonho Americano e a Estigmatização da Pobreza

A narrativa do "Sonho Americano", a ideia de que o sucesso é alcançável através do trabalho árduo e da perseverança, parece ter um efeito colateral perverso. Graham argumenta que, em um país tão rico, a pobreza pode se tornar não apenas uma condição material, mas também um estigma social. "Pobres na América Latina são muito mais esperançosos do que pobres nos EUA", observa Graham, que nasceu no Peru. "Concluí que é mais difícil ser pobre em um país muito rico, onde você é, de certa forma, estigmatizado. E a narrativa do Sonho Americano meio que te estigmatiza." A ideia de que o fracasso é uma falha pessoal, desprovida de reconhecimento do papel da "má sorte" ou de barreiras estruturais, pode levar a um profundo sentimento de desespero. A cultura de individualismo e a desconfiança em redes de apoio social, características apontadas na pesquisa, exacerbam essa tendência, resultando em um "contrato social mais fino" em comparação com outras nações desenvolvidas.

A Esperança como Antídoto ao Desespero

Em contrapartida ao desespero, Graham tem explorado o poder da esperança. Sua pesquisa, inclusive um estudo com 25.000 adultos australianos, demonstra que níveis mais altos de esperança estão associados a melhores resultados de saúde, educação e emprego. A esperança, diferente da felicidade ou do otimismo, envolve um senso de agência e controle interno. Indivíduos esperançosos não apenas se adaptam melhor a choques negativos, mas também se recuperam mais rapidamente. Essa capacidade de "lidar melhor com a adversidade" é um componente crucial para a resiliência individual e coletiva. Em um mundo onde as estatísticas podem mascarar realidades sombrias, a esperança emerge como um fator vital para navegar as complexidades da vida moderna e mitigar os efeitos corrosivos da desigualdade.

Os Homens Invisíveis e a Fuga da Realidade

Um dos aspectos mais preocupantes da pesquisa de Graham é a identificação de grupos que as estatísticas tradicionais frequentemente ignoram. Ela destaca os homens em idade produtiva que deixaram a força de trabalho, um contingente que "não é contado nos dados usuais". Esses indivíduos, muitas vezes vivendo com os pais ou em bairros desfavorecidos, enfrentam "muito sofrimento e pessimismo", sendo desproporcionalmente representados entre usuários de opioides e casos de "falha em decolar". A discrepância entre os números macroeconômicos que apontam para um mercado de trabalho forte e a realidade vivida por muitos americanos é um terreno fértil para o populismo e a frustração. Graham sugere que o sistema está deixando amplos setores da sociedade para trás, não necessariamente na miséria absoluta, mas na ausência de esperança, um sentimento talvez mais insidioso.

Um Futuro em Aberto

A análise de Carol Graham lança uma luz incômoda sobre a relação entre prosperidade e bem-estar. Os dados sugerem que a mera acumulação de riqueza não garante a felicidade, e que a forma como essa riqueza é distribuída e percebida culturalmente pode ter consequências profundas. A narrativa do Sonho Americano, outrora um farol de otimismo, pode estar se tornando um fardo para aqueles que lutam para alcançá-lo em um sistema cada vez mais desigual. A questão que permanece é se os Estados Unidos conseguirão redefinir sua relação com o sucesso e a desigualdade, transformando o desespero em esperança e garantindo que a prosperidade material se traduza em um bem-estar genuíno para todos os seus cidadãos. A pesquisa de Graham nos convida a olhar além dos números e a considerar a experiência humana em toda a sua complexidade.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune