A publicação de João Moreira Salles na revista piauí, "O que esses brasileiros sabem", gerou uma réplica contundente de Roberto Rachewsky, co-fundador de instituições como o IEE e o Instituto Liberdade. O ensaio de Salles, que critica a elite empresarial e financeira por dialogar com Flávio Bolsonaro apesar de seu histórico e de seu pai, Jair Bolsonaro, é visto por Rachewsky como um exercício de "seleção" e "racionalização", em vez de compreensão.
Rachewsky propõe uma "terceira possibilidade" além de "compreender" e "acreditar": a de "selecionar" fatos que confirmam uma conclusão pré-concebida, excluindo aqueles que a perturbam. Para ele, a democracia é um método, não um valor moral primário, e seu valor reside na proteção de direitos individuais como vida, liberdade e justiça. A tortura, a ditadura, as milícias e a censura estatal devem ser julgadas pelo mesmo princípio, sem que haja uma moral distinta para aliados e adversários.
A régua da justiça e a culpa por associação
O ponto central da argumentação de Rachewsky reside na crítica à "culpa por associação" que ele percebe no ensaio de Salles. Ao dedicar grande espaço a Carlos Alberto Brilhante Ustra e à homenagem prestada por Jair Bolsonaro, Salles, segundo Rachewsky, estende essa condenação a Flávio Bolsonaro e, subsequentemente, a empresários que aceitam jantar ou conversar com ele. Rachewsky contesta essa lógica, afirmando que "sentar à mesa não é aderir", "conversar não é endossar" e "conhecer não é participar". Ele defende que a justiça exige a avaliação de cada indivíduo por seu próprio caráter e ações, com provas concretas de crimes e participação.
Rachewsky ilustra sua crítica com um paralelo histórico envolvendo o pai do próprio João Moreira Salles, o banqueiro Walther Moreira Salles, que manteve interlocução com João Goulart e o embaixador americano Lincoln Gordon às vésperas do golpe militar de 1964. Ele questiona por que a conversa do pai de Salles com Gordon não o tornaria um golpista, enquanto a interlocução de empresários com Flávio Bolsonaro em 2026 seria vista como legitimação de atos condenáveis. A incoerência, para Rachewsky, reside em aplicar uma régua moral distinta para adversários e aliados, ou para figuras históricas e contemporâneas.
O falso dilema e a seletividade da crítica
Outro ponto de discórdia é o "falso dilema" apresentado por Salles, que reduziria a escolha moral dos empresários a uma alternativa entre "irresponsabilidade fiscal" e "tortura". Rachewsky argumenta que é possível condenar inequivocamente a tortura e, ao mesmo tempo, considerar ameaças aos direitos individuais a dívida pública, a inflação, a censura e o abuso institucional. Ele também refuta a ideia de que programas sociais se baseiam apenas na compaixão, defendendo que a questão moral anterior é sobre a propriedade do dinheiro e os direitos individuais à vida, propriedade e liberdade, sem coerção estatal.
Rachewsky critica ainda a "seleção conveniente" no texto de Salles, que, ao investigar ameaças aos direitos e ao Estado de Direito, foca em figuras da direita e ignora a história de violência e autoritarismo da esquerda. Ele aponta para o Mensalão, Petrolão e outras controvérsias envolvendo o PT e governos de esquerda na América Latina, sugerindo que a mesma lupa crítica deveria ser aplicada a Lula e seus aliados, assim como a Ustra foi analisado. A exigência de Rachewsky é por uma "régua" única e consistente para todos os atores políticos e econômicos.
Implicações para a elite e o debate público
A análise de Rachewsky levanta questões cruciais sobre como a elite empresarial brasileira navega o cenário político e como o debate público avalia a conduta de seus líderes. Ao criticar a "culpa por associação" e a "seleção" de fatos, ele sugere que a busca por responsabilidade fiscal, redução de impostos e menos regulamentação não deveria automaticamente implicar a adesão a ideologias ou práticas condenáveis. A separação entre o indivíduo e seus atos, e entre um governante e suas políticas, é fundamental para um julgamento justo.
A crítica à "interlocução" de empresários com políticos, que Salles vê como legitimação, é vista por Rachewsky como um esvaziamento do próprio conceito de diálogo e debate democrático. Ele questiona se jornalistas, que podem entrevistar pessoas sem legitimá-las, deveriam ter um tratamento distinto dos empresários. A implicação é que, para uma democracia saudável, o diálogo com diferentes espectros políticos, mesmo com aqueles que geram desconforto, é essencial para a fiscalização e a compreensão das propostas.
Perguntas em aberto e o futuro do debate
Uma das questões centrais que emergem da réplica de Rachewsky é a definição de "golpe" e a capacidade objetiva de tomada de poder. Ele contesta a caracterização do 8 de janeiro como uma tentativa de golpe efetiva, argumentando que a invasão e o vandalismo, embora criminosos, não demonstram meios objetivos para derrubar o governo. Essa discussão tem implicações diretas na forma como eventos políticos são interpretados e julgados, e como a responsabilidade individual é atribuída.
Além disso, a persistente "seleção" de fatos e a aplicação de "duas medidas" na avaliação moral de figuras políticas e empresariais deixam em aberto a questão de como o debate público pode alcançar uma maior isenção e rigor. A tentativa de Rachewsky é de desvincular a avaliação moral de indivíduos e grupos de suas afiliações políticas ou parentesco, focando na autonomia moral e na responsabilidade individual. A pergunta que fica é se a sociedade brasileira está pronta para aplicar essa régua universal, sem partidarismos.
No fim das contas, a divergência entre Salles e Rachewsky expõe a complexidade de julgar ações e intenções em um ambiente político polarizado. Enquanto Salles parece priorizar a coerência moral e a condenação de associações vistas como problemáticas, Rachewsky defende a primazia dos direitos individuais e a necessidade de uma justiça que avalie cada um por seus próprios atos, sem herdar culpas ou virtudes. A reflexão sobre "o que cada um decidiu não ver" permanece como um convite à autoanálise.
Com informações do Brazil Journal (https://braziljournal.com/opiniao-uma-resposta-a-joao-moreira-salles/)
Source · Brasil Journal Tech





