O governo do Rio Grande do Sul anunciou a criação de dois fundos que totalizam um aporte inicial de R$ 402 milhões, numa tentativa de remodelar sua estratégia de desenvolvimento econômico em meio à crise climática. O movimento, reportado pelo Money Times, busca financiar empresas e, crucialmente, estimular o mercado de seguros contra desastres naturais.
A iniciativa não é apenas uma reação à recente tragédia que assolou o estado. Trata-se de um movimento estratégico que antecipa os efeitos da reforma tributária sobre os incentivos fiscais tradicionais e posiciona o RS como um laboratório para novos instrumentos financeiros que mesclam fomento, mercado de capitais e gestão de risco climático.
Do fomento ao mercado de capitais
O maior dos instrumentos, o Fundo Fácil RS, com R$ 300 milhões, sinaliza uma mudança de paradigma. Em vez de subsídios diretos, o estado atuará como investidor-âncora, comprando até 40% de emissões de debêntures de empresas que invistam na região. A condição é que o mercado privado absorva os 60% restantes, o que pode alavancar cerca de R$ 750 milhões em investimentos. A tese é usar o capital público para destravar o privado, facilitando o acesso de companhias com faturamento de até R$ 500 milhões ao mercado de dívida, potencialmente com custos menores.
Essa abordagem é mais sofisticada que o simples crédito subsidiado. Ela força uma diligência de mercado, já que investidores privados precisarão validar o risco de cada operação. Para o governo, é uma forma de multiplicar seu capital e profissionalizar o fomento, alinhando-se a uma meta ambiciosa de dobrar o crescimento médio do PIB estadual para 3% ao ano.
Precificando a catástrofe
O segundo veículo, o Fundo Gaúcho de Riscos Climáticos, é ainda mais inovador. Com R$ 102 milhões, ele poderá adquirir Letras de Risco de Seguro (LRS), um instrumento que permite ao mercado de capitais investir diretamente no risco de apólices de seguros. Na prática, o governo gaúcho não está apenas subsidiando seguros, mas criando um mercado para o próprio risco climático. O fundo se tornará um parceiro das seguradoras, compartilhando os prêmios recebidos e as perdas em caso de sinistro.
Inicialmente focado em seguros residenciais e de prédios públicos, o mecanismo busca resolver um problema agudo: a baixa oferta e o alto custo de proteção contra eventos extremos. Ao assumir parte do risco, o estado espera tornar as apólices mais acessíveis e viáveis, transferindo uma fatia do risco de catástrofe para investidores dispostos a aceitá-lo em troca de retorno. É uma tentativa de precificar e distribuir um risco que, até então, recaía desproporcionalmente sobre cidadãos e o próprio poder público.
Como afirmou Eduardo Lorea, vice-presidente da Invest RS, a ideia é “começar antes para errar antes e acertar antes também”. As iniciativas representam o reconhecimento pragmático de que os velhos modelos de desenvolvimento são insuficientes para a nova realidade climática. A questão que fica é se o laboratório gaúcho conseguirá criar um modelo escalável para o resto do Brasil.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





