O deputado republicano Ryan Zinke, representante de Montana, defendeu publicamente a remoção do urso pardo da lista de espécies ameaçadas de extinção nos Estados Unidos. A declaração ocorre após dois incidentes envolvendo ataques de ursos em parques nacionais, que deixaram um caminhante morto e dois feridos em maio deste ano.

Zinke argumenta que a população de ursos pardos cresceu além dos limites sustentáveis e que a gestão da espécie deveria ser delegada aos estados. Segundo reportagem da Outside Online, o parlamentar defende essa pauta desde 2015, utilizando os episódios recentes como justificativa para acelerar a desregulamentação federal.

O debate sobre a recuperação da espécie

Especialistas em conservação, no entanto, contestam a correlação entre os ataques e a necessidade de deslistagem da espécie. Chris Servheen, ex-coordenador nacional de recuperação de ursos pardos do U.S. Fish and Wildlife Service (FWS), descreveu a proposta como enganosa. Ele afirma que os ataques são eventos aleatórios que independem do status legal de proteção do animal.

A população de ursos pardos nos Estados Unidos continentais saltou de cerca de 700 indivíduos na década de 1970 para aproximadamente 2.000 atualmente. Apesar desse avanço, cientistas apontam que a gestão de conflitos entre humanos e animais exige estratégias de convivência, e não necessariamente a redução das proteções previstas pelo Endangered Species Act (ESA).

Mecanismos de gestão e autoridade legal

O ponto central da disputa envolve a jurisdição sobre as terras federais. Servheen ressalta que os ataques recentes ocorreram dentro de parques nacionais, onde as autoridades estaduais não teriam poder de gestão mesmo que a espécie perdesse o status de proteção federal. A proposta de Zinke, portanto, ignora a realidade geográfica e administrativa dessas áreas.

Para que o FWS remova uma espécie da lista de proteção, é necessário um embasamento científico que comprove a recuperação plena e a mitigação de ameaças, como a perda de habitat. O Congresso, contudo, possui a prerrogativa de legislar para contornar essa análise técnica, o que transformaria uma questão de conservação biológica em uma manobra política direta.

Tensões entre política e ciência

Andrea Zaccardi, diretora jurídica do Centro para a Diversidade Biológica, aponta que o próprio FWS reafirmou recentemente, em 2025, que a ciência disponível sustenta a manutenção das proteções atuais. Alterar esse entendimento exigiria uma justificativa técnica robusta que, segundo especialistas, não existe no momento.

A narrativa política que vincula a segurança pública à desregulamentação ignora estatísticas sobre o risco real de ataques. Zaccardi enfatiza que a probabilidade de um incidente com ursos é significativamente menor do que os riscos enfrentados pelos visitantes durante o trajeto de carro até os parques nacionais.

Perspectivas de conservação

A incerteza sobre o futuro da gestão da espécie permanece no centro do debate legislativo. A pressão política por mudanças rápidas contrasta com o tempo necessário para avaliações biológicas de longo prazo, criando um cenário de impasse entre conservacionistas e defensores da autonomia estadual.

O desfecho dessa disputa definirá não apenas o futuro dos ursos pardos, mas também o precedente para o manejo de outras espécies sob proteção federal. A forma como o governo americano equilibrará a segurança dos visitantes com a preservação da biodiversidade continuará a ser monitorada por especialistas e legisladores.

O embate entre a gestão baseada em evidências científicas e as demandas políticas por flexibilização regulatória aponta para um desafio contínuo na governança de terras públicas. A questão que se coloca é se a legislação será capaz de absorver as complexidades biológicas ou se cederá à pressão por soluções simplistas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Outside Online