A cena é, à primeira vista, de uma simplicidade quase didática. Em uma sala iluminada, Mari, uma diretora de teatro experimental interpretada por Tao Okamoto, empunha dois marcadores coloridos diante de um quadro branco. Com a precisão de uma cirurgiã, ela desenha as engrenagens da falência do capitalismo, transformando conceitos econômicos abstratos em uma coreografia visual. Diante dela, Maire-Lou, vivida por Virginie Efira, observa não apenas a teoria, mas a urgência da vida que escapa pelos vãos de um sistema que, muitas vezes, reduz o indivíduo a meros dados em planilhas. É neste instante que Ryusuke Hamaguchi, mestre em dissecar a condição humana, nos convida a repensar a própria essência do zelo.

Em "All of a Sudden", o cineasta japonês afasta-se dos grandes espetáculos para focar na intimidade. Ambientado em Paris, o filme nasce de uma inspiração factual: a obra "You and I – The Illness Suddenly Get Worse", de Makiko Miyano e Maho Isono. A trama se desenrola no "Jardim da Liberdade", uma casa de repouso para pacientes com Alzheimer que adota o método "Humanitude". Liderada por Marie-Lou, a instituição desafia a frieza burocrática dos sistemas de saúde tradicionais, propondo que a técnica de cuidar seja, antes de tudo, um exercício de presença radical e narrativa compartilhada.

A arquitetura do afeto

O conceito de "Humanitude", que serve como espinha dorsal da narrativa, não é apenas um procedimento técnico, mas uma filosofia de encontro. Hamaguchi utiliza esse ambiente para explorar como a linguagem pode ser uma ferramenta de cura ou de distanciamento. Ao cruzar o caminho de Marie-Lou com Mari — que descobre estar em estágio terminal de um câncer —, o filme se torna um inventário de conversas. As duas personagens, que transitam entre o francês e o japonês com uma naturalidade que sugere uma comunicação que transcende a gramática, encontram na finitude da vida um espaço para a expansão do afeto.

Para o diretor, o cuidado é uma forma de arte performática. Assim como em "Drive My Car", Hamaguchi valoriza o tempo necessário para que as personagens se desarmem. A resistência inicial dos profissionais de saúde da casa, que veem no método uma ameaça à hierarquia estabelecida, reflete a tensão entre a eficiência técnica e o valor humano. O filme argumenta que o esforço de entender o outro, mesmo quando a compreensão total é impossível, é o que sustenta a dignidade em um mundo que tende a ser indiferente ao declínio.

Linguagem como ponte

O mecanismo do filme reside na sua capacidade de transformar diálogos em eventos dramáticos. Hamaguchi retoma o uso de sessões de perguntas e respostas, uma marca registrada de sua filmografia, para expor a vulnerabilidade dos personagens. Quando as barreiras linguísticas caem e o público é convidado a testemunhar confissões em espaços públicos, o filme revela que o segredo da conexão humana não reside na clareza absoluta, mas na disposição de ser vulnerável diante do outro.

As performances teatrais que pontuam a obra funcionam como metáforas para a própria vida no "Jardim da Liberdade". Cada interação entre Marie-Lou e Mari é uma tentativa de encenar a existência antes que a cortina se feche. Ao fundir a antropologia de uma com a criatividade da outra, o cineasta cria um espelho onde o espectador é forçado a confrontar o seu próprio papel como cuidador ou paciente em um ciclo inevitável.

Tensões no ecossistema do cuidado

As implicações de "All of a Sudden" ultrapassam o cinema e tocam o nervo exposto da gestão pública e privada da saúde. Ao criticar a desumanização dos pacientes, o longa dialoga com os desafios enfrentados por sistemas de saúde ao redor do mundo, incluindo o Brasil, onde a infraestrutura hospitalar muitas vezes luta para equilibrar o atendimento técnico com a demanda por acolhimento humanizado. A obra sugere que a inovação não está apenas na tecnologia, mas na forma como organizamos o tempo e o olhar para aqueles que estão na margem do sistema.

Competidores, reguladores e famílias encontram aqui um espelho sobre a eficácia da empatia. O filme não oferece uma solução mágica para a perda ou a doença, mas defende que a tentativa de compreender o nível de realidade do outro é, por si só, um ato de resistência política. A narrativa nos força a questionar se estamos preparados para oferecer o que é invisível, mas essencial, no processo de cuidar.

A persistência da dúvida

O que permanece após o término da projeção é a incerteza sobre o futuro das personagens, um espelho da nossa própria finitude. Hamaguchi não busca o encerramento catártico, mas a continuidade da reflexão. O título do filme, que remete à natureza súbita do declínio físico de Mari, paira sobre cada cena como um lembrete da fragilidade do presente.

Devemos observar como o debate sobre a "Humanitude" e outras metodologias de cuidado evoluirá na prática clínica real, para além da ficção. Se o cinema é uma ferramenta para desconstruir o mundo, "All of a Sudden" nos deixa com a tarefa de reconstruí-lo através de pequenos gestos. Será que a linguagem será sempre suficiente para preencher o abismo entre quem cuida e quem precisa ser cuidado, ou a resposta reside apenas no silêncio compartilhado?

O que resta, ao final, é a imagem de duas mulheres tentando, contra o tempo, traduzir a complexidade de estarem vivas. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Little White Lies