A historiadora e professora da Columbia University, Saidiya Hartman, consolidou-se como uma das vozes mais influentes na intersecção entre teoria crítica e artes visuais. Conhecida por desenvolver o método da "fabulação crítica" — uma técnica que utiliza a especulação narrativa para preencher as lacunas e silêncios deixados pelos arquivos coloniais sobre populações escravizadas e oprimidas —, Hartman agora expande sua prática para o campo da performance. Em outubro, ela estreou "Minor Music at the End of the World", uma obra em três partes que imagina o fim da supremacia branca, consolidando um movimento de transição da página escrita para a encenação colaborativa.
O projeto, que recentemente teve uma temporada em Veneza, conta com a colaboração de nomes centrais da arte contemporânea, como o cineasta Arthur Jafa, a escultora Precious Okoyomon e o ator André Holland. A peça é uma resposta direta ao ensaio de Hartman de 2020, "The End of White Supremacy", que por sua vez dialoga com o conto "The Comet", de W. E. B. Du Bois. A transição para o palco, segundo a autora, surgiu da necessidade de libertar as palavras do papel, permitindo que elas ganhassem textura e significado através da incorporação e da voz de outros intérpretes.
A evolução da fabulação crítica
O conceito de fabulação crítica, embora tenha se tornado uma ferramenta fundamental para artistas contemporâneos, não deve ser confundido com a ficção pura. Para Hartman, o método é uma resposta rigorosa à limitação do arquivo, que muitas vezes exclui sujeitos marginalizados ou os registra apenas sob condições de coerção. A prática consiste em utilizar os vestígios materiais existentes para orquestrar histórias que desafiam a narrativa dominante, mantendo o compromisso com a pesquisa histórica enquanto se reconhece a impossibilidade de conhecer a totalidade dos fatos.
Essa abordagem gerou uma onda de citações em instituições de prestígio, como o Art Institute of Chicago e o MoMA, onde galerias inteiras foram dedicadas ao tema. No entanto, Hartman mantém uma postura crítica sobre a apropriação de seu trabalho. Ela relata, por exemplo, o uso indevido de seu conceito por um museu etnográfico na Alemanha, que pretendia utilizar o termo "fabulação crítica" para reabilitar uma coleção que exibia restos mortais de povos Herero. Para a autora, tal tentativa configura um caso de "captura de elite", onde a teoria é instrumentalizada para legitimar estruturas coloniais que, na prática, ela busca desmantelar.
Mecanismos de colaboração artística
A colaboração em "Minor Music" marca uma mudança significativa no método de trabalho de Hartman. Enquanto historiadores utilizam o arquivo para mapear eventos e cronologias, artistas frequentemente tratam o arquivo como matéria-prima para a construção de novas narrativas estéticas. Ao trabalhar com Jafa e Okoyomon, Hartman encontrou uma forma de orquestrar pensamentos que ultrapassam sua própria voz singular, permitindo que o público experimente o tempo de uma forma sedimentada e entrelaçada, onde o passado, o presente e a especulação futura coexistem.
O uso de elementos cinematográficos e sonoros, somado à direção de Sarah Benson, permite que a performance explore o "fim do mundo" não como uma catástrofe isolada, mas como o colapso necessário do capitalismo racial e do colonialismo. A obra funciona como uma orquestração de ideias, onde a teoria política se torna uma experiência sensorial, desafiando o público a imaginar o que existe para além das estruturas de dominação atuais.
Implicações para o campo da teoria e da arte
O movimento de Hartman para as artes performáticas levanta questões sobre o papel do intelectual público na contemporaneidade. Ao se afastar da rigidez da escrita acadêmica tradicional, ela abre espaço para que suas ideias sejam testadas em novos contextos, sujeitas à interpretação e à materialização física. Esse processo de "descolagem" das palavras da página, conforme descrito pela autora, sugere uma nova fase em que a teoria não apenas analisa o mundo, mas participa ativamente da sua reconfiguração estética.
Para o ecossistema artístico, a colaboração com teóricos como Hartman reforça a importância da pesquisa histórica na produção contemporânea. A tensão entre a necessidade de documentação e o desejo de imaginação radical permanece no centro do debate. Enquanto reguladores e museus enfrentam pressões crescentes para lidar com o legado colonial de seus acervos, a postura de Hartman serve como um lembrete de que o arquivo é, em muitos aspectos, um necrotério, e que qualquer tentativa de reabilitação deve ser profundamente cautelosa.
Novos horizontes de pesquisa
O olhar de Hartman agora se volta para um novo projeto de livro, que explora a Revolução Bolchevique e seu impacto na vida de pessoas negras. Se em "Wayward Lives" a autora investigou uma "revolução em tom menor", o novo trabalho busca compreender a transformação radical em uma escala mais ampla, mantendo o foco na relação entre o estrutural e a experiência vivida no cotidiano.
O que permanece em aberto é como essa transição entre o local e o global, o íntimo e o histórico, continuará a informar sua prática. Observar como a autora articula a ideia de transformação radical frente aos regimes de poder atuais será um ponto central para entender o desdobramento de sua obra nos próximos anos. A ausência de certezas absolutas, que Hartman admite ser parte integrante de sua pesquisa, parece ser, paradoxalmente, sua maior força analítica.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews





