Samia Halaby, uma das figuras mais singulares da arte contemporânea, construiu uma trajetória de sete décadas fundamentada na observação minuciosa da natureza e na aplicação rigorosa de princípios geométricos. Nascida em Jerusalém em 1936 e deslocada durante a Nakba de 1948, a artista consolidou sua carreira nos Estados Unidos, onde se tornou a primeira mulher a lecionar como professora associada em tempo integral na Yale School of Art. Sua obra, que transita entre a pintura em tela e a arte digital, é um testemunho da evolução da abstração no século XX.
A prática de Halaby não se limita ao exercício estético. Segundo reportagem da Hyperallergic, a artista identifica-se com a filosofia marxista, lendo a história da arte sob uma ótica de classe e compromisso político. Essa perspectiva permeia tanto sua produção visual quanto seu ativismo, evidenciado em obras como "Liberation Art of Palestine" e no seu recente trabalho em exposições de prestígio, como a Whitney Biennial de 2026. A artista defende que a abstração carrega o potencial de traduzir a energia das revoluções sociais, conectando sua produção a movimentos históricos que buscaram novas linguagens pictóricas.
A gênese da abstração e a influência do design
A formação de Halaby na Universidade de Cincinnati, entre 1955 e 1959, foi determinante para a estruturação de seu método. Durante esse período, o contato com os princípios da Bauhaus e o estudo aprofundado do sistema de cores de Munsell forneceram a base teórica para sua investigação visual. A artista descreve o ensino como uma combinação equilibrada entre o prático e o criativo, onde a compreensão física da luz e da cor precedia a execução técnica da pintura.
Essa abordagem científica permitiu que Halaby superasse a representação figurativa convencional. Ao observar a natureza — desde a estrutura de folhas secas até o crescimento de plantas — ela passou a buscar padrões que pudessem ser traduzidos em algoritmos visuais. A leitura editorial aqui é que essa transição para a abstração não foi uma ruptura arbitrária, mas uma consequência lógica de seu desejo de representar o movimento e o crescimento, elementos que ela considera intrínsecos à beleza orgânica.
A transição para o digital e a geometria
Nos anos 1980, Halaby encontrou no computador Commodore Amiga uma ferramenta para expandir os limites de sua investigação. Longe de buscar a animação pura, ela utilizou os comandos básicos da máquina para criar pinturas cinéticas que, em sua essência, permanecem materialistas. A artista enfatiza que essas obras, embora digitais, são compostas por material magnetizado, tratando o software como um meio de pintura que permite a manipulação de geometria e tempo de forma inédita.
O uso da tecnologia, contudo, é visto por ela como uma extensão de sua busca pela "crescente" da pintura. Inspirada pela geometria islâmica e pela sequência de Fibonacci, Halaby desenvolveu séries que integram textura e cor de maneira que a dimensão do espaço se torne incalculável. A análise aqui sugere que a tecnologia, para a artista, atua como um catalisador para uma abstração que se recusa a ser estática, mantendo-se em constante mutação, tal qual os fenômenos naturais que ela observa.
O papel político da linguagem abstrata
A relação entre a arte de Halaby e o ativismo político é um dos pilares de sua carreira. Ela estabelece paralelos entre os movimentos de abstração do início do século XX, como o Suprematismo e o Cubismo, e as revoluções da classe trabalhadora. Para a artista, a energia contida nas obras de vanguarda soviética, por exemplo, reflete o otimismo social de períodos de transformação. Ela vê sua própria produção como parte desse legado de intelectuais que acompanham movimentos revolucionários.
Essa postura gerou tensões institucionais, exemplificadas pelo cancelamento abrupto de sua retrospectiva na Indiana University em 2024. O episódio é amplamente interpretado como uma tentativa de silenciamento de vozes palestinas no meio acadêmico e cultural. A resistência de Halaby diante desses obstáculos reforça sua convicção de que a arte não é um território neutro, mas um campo de batalha onde a liberdade de expressão e a integridade da visão artística são constantemente testadas.
Perspectivas e o futuro da investigação
Atualmente, Halaby mantém sua rotina de trabalho em seu estúdio em Tribeca, onde continua a explorar as conexões entre seus desenhos e a teoria exposta em seu livro "Growing Shapes". A artista mantém uma postura de observadora atenta aos movimentos juvenis de ativismo, encontrando neles a mesma energia que descreve em seus estudos sobre a história das vanguardas. A questão que permanece é como a abstração, em um mundo cada vez mais mediado por telas e dados, continuará a servir como uma ferramenta de leitura da realidade.
O trabalho de Halaby sugere que a abstração não é o fim da representação, mas o início de uma forma mais profunda de compreensão do mundo. Ao evitar a facilidade do figurativo em favor da complexidade dos padrões naturais e sociais, ela continua a desafiar o espectador a ver com, como ela diz, "ambos os olhos abertos". O futuro de sua obra parece estar ligado à sua capacidade contínua de renovar essa linguagem em tempos de incerteza política e tecnológica.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Hyperallergic





