O governo da Espanha, liderado pelo primeiro-ministro Pedro Sánchez, lançou uma nova plataforma estatal para moradia acessível, a Casa 47. O movimento, no entanto, foi marcado por uma forte ofensiva política contra o que Sánchez descreve como um modelo de especulação imobiliária, personificado pela controversa aquisição de uma cobertura de luxo de €6 milhões pelo governo regional de Madri.

Segundo reportagem da Forbes España, Sánchez usou o lançamento para traçar uma linha clara entre duas visões antagônicas para a crise habitacional. De um lado, sua política de intervenção estatal para garantir moradia digna. Do outro, um modelo que, em suas palavras, beneficia a elite. A tese do governo é que o mercado, por si só, “está quebrado” e falhou em prover um direito básico, exigindo uma resposta pública robusta.

O Estado como locador

A Casa 47 é a materialização da estratégia de Sánchez. A plataforma nasce como uma Entidade Estatal de Habitação e Solo, funcionando como um portal centralizado para o parque público de imóveis. A oferta inicial é de 800 residências, com a promessa de adicionar outras 1.500 em breve, distribuídas por todo o país. A ambição é que o portfólio cresça continuamente a cada trimestre.

As regras são desenhadas para proteger os inquilinos e combater a escalada de preços. O aluguel será limitado a, no máximo, 30% da renda do locatário, com contratos de longa duração, de 14 a 75 anos. Sánchez afirmou que as moradias da Casa 47 estarão “protegidas para sempre” da especulação, uma crítica direta a políticas passadas que permitiram a venda de patrimônio público para “fundos abutre”, que, segundo ele, “antepõem a especulação à dignidade humana”.

A guerra dos modelos

O contraponto para a política federal veio da Comunidade de Madri, governada pela opositora Isabel Díaz Ayuso. Embora não a tenha citado nominalmente, Sánchez mirou na polêmica compra de uma cobertura de mais de €6 milhões, que seria destinada a “dependências administrativas” e, posteriormente, foi colocada à venda. “Enquanto os espanhóis buscam alguns metros para viver, ela queria 200 só para sair no terraço”, alfinetou o primeiro-ministro.

A ministra da Habitação, Isabel Rodríguez, reforçou o contraste. Criticou governos regionais que “chamam investidores estrangeiros para que comprem nossos bairros inteiros” ou usam dinheiro público para adquirir imóveis de luxo. A disputa ilustra uma fratura profunda na política espanhola: de um lado, a defesa de um Estado interventor e provedor; do outro, um modelo mais liberal, que o governo central acusa de servir à especulação e agravar a crise de acesso à moradia.

O debate na Espanha não é um caso isolado, mas um reflexo da tensão que percorre a Europa, onde cidades como Lisboa, Berlim e Dublin enfrentam crises habitacionais severas. A iniciativa de Sánchez é uma aposta de alto risco no poder do Estado para corrigir uma disfunção de mercado, mas sua eficácia dependerá da escala e da adesão de governos locais — um campo minado pela polarização política.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España