O Scotiabank iniciou a cobertura das ações da Embraer (EMBJ) com recomendação de compra e um preço-alvo de US$ 81, sugerindo um potencial de valorização de 47% frente à cotação recente. A análise, conduzida pelos analistas Jorge Gabrich e Pedro Nascimento, argumenta que o mercado ainda aplica um desconto excessivo sobre os ativos da companhia brasileira, ignorando a robustez de sua estrutura operacional e a solidez de sua carteira de pedidos.
A tese do banco canadense baseia-se na premissa de que a Embraer superou os desafios estruturais herdados do período pós-Boeing e consolidou um modelo de negócios dolarizado e eficiente. Para os analistas, o valor intrínseco da operação principal da fabricante já justificaria uma valorização de cerca de 27%, enquanto a participação na Eve Holding atua como uma alavanca de crescimento adicional, embora carregue riscos inerentes ao desenvolvimento de tecnologias emergentes.
Pilares da valorização operacional
A sustentação da recomendação de compra repousa sobre quatro eixos fundamentais: a expansão do backlog, que deve atingir US$ 33,4 bilhões até 2026; o aumento sincronizado das entregas em todas as unidades de negócio; o fortalecimento da divisão de Serviços & Suporte; e a valorização estratégica da fatia de 72% na Eve. O Scotiabank ressalta que a Embraer apresenta uma trajetória superior de geração de fluxo de caixa livre (FCF) comparada a players globais, com projeções que indicam um salto de US$ 223 milhões em 2026 para US$ 911 milhões em 2029.
Além do desempenho operacional, a comparação de múltiplos reforça a percepção de atratividade. A empresa é negociada a 8,2x o valor de firma sobre o Ebitda estimado para 2027, um desconto que chega a 42% em relação à Bombardier e 25% frente à Airbus. Essa disparidade, segundo o banco, é injustificada diante da qualidade equivalente da carteira de pedidos e da disciplina na gestão de custos que a companhia tem demonstrado nos últimos trimestres.
O papel da Eve na tese de longo prazo
A unidade de eVTOL da Embraer, a Eve, é tratada pelo Scotiabank como uma opção de valor, apesar das cautelas de curto prazo. O banco estima que a participação da Embraer na subsidiária vale aproximadamente US$ 11,50 por ação, com potencial de adicionar outros US$ 2,50 caso o cronograma de certificação seja cumprido sem novos percalços até 2028. A vantagem competitiva da Eve reside na transferência tecnológica de 55 anos de expertise da controladora em engenharia aeronáutica.
Contudo, o mercado mantém ressalvas quanto ao consumo de caixa da Eve, que oscila entre US$ 225 milhões e US$ 275 milhões anuais, e à composição da carteira de pedidos, ainda majoritariamente baseada em cartas de intenção não vinculantes. O Scotiabank reconhece que a baixa liquidez das ações da subsidiária e o cronograma de desenvolvimento são fatores que pressionam o preço no curto prazo, mas sustenta que o risco é compensado pelo domínio técnico da Embraer no setor.
Riscos e incertezas geopolíticas
Apesar do otimismo, a tese do Scotiabank não ignora os riscos macroeconômicos e operacionais. Os analistas alertam para a persistência das dificuldades na cadeia global de suprimentos, que ainda afetam o ritmo de entregas em todo o setor. Além disso, a escalada de tensões no Estreito de Ormuz é monitorada como um gatilho para a volatilidade nos preços do combustível de aviação, o que poderia impactar diretamente a demanda global por novas aeronaves.
Outro ponto de atenção é a possibilidade de retomada de tarifas protecionistas por parte dos Estados Unidos sobre exportações brasileiras do setor aeroespacial. Embora a Embraer tenha diversificado sua base de clientes e receitas, uma alteração no ambiente regulatório e comercial americano permanece como uma variável de risco que exige monitoramento constante por parte dos investidores e da gestão da companhia.
Perspectivas para o mercado
O cenário traçado pelo Scotiabank aponta para uma expansão gradual das margens Ebitda, projetadas para subir de 11,5% em 2026 para 12,4% em 2028, impulsionadas pelo mix de produtos executivos. A transição da empresa para uma fase de colheita de caixa, com a expectativa de que o ROE supere 20% até o fim da década, coloca a Embraer em uma posição competitiva distinta.
O sucesso dessa trajetória dependerá, em última análise, da execução operacional nos próximos anos. A capacidade da empresa de converter seu backlog recorde em entregas efetivas, mantendo o controle sobre os custos de produção, será o fiel da balança para que o mercado ajuste o prêmio de risco atribuído ao ativo. O mercado financeiro agora observa se a Embraer conseguirá, de fato, descolar-se das preocupações típicas de mercados emergentes.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





