A Organização de Consumidores e Usuarios (OCU) emitiu um alerta nesta quinta-feira sobre a fragilidade das apólices de seguro oferecidas por agências de viagens online durante o fluxo de reserva. Segundo análise técnica da organização, as coberturas comercializadas para destinos internacionais, como o Japão, apresentam limites de gastos médicos que variam entre 12.000 e 150.000 euros, valores considerados insuficientes para a realidade de custos hospitalares em diversas regiões fora da União Europeia.
A recomendação da entidade é clara: para viagens em continentes como África, América, Ásia e Oceania, o viajante deve buscar coberturas mínimas de 1.000.000 de euros. A tese editorial é que o modelo de 'venda cruzada' (cross-selling) das agências prioriza a conveniência e a conversão rápida, negligenciando a adequação técnica do seguro ao risco real do destino escolhido pelo consumidor.
O abismo nas coberturas internacionais
O problema reside na discrepância entre a oferta padrão e a necessidade real de proteção em países onde o sistema de saúde não possui acordos recíprocos ou subsídios públicos. Enquanto a Tarjeta Sanitaria Europea (TSE) garante assistência adequada dentro do bloco europeu e em países associados como Suíça, Noruega e Reino Unido, a proteção desaba ao cruzar as fronteiras externas.
A análise da OCU destaca que, embora empresas como Logitravel, eDreams, Buscounchollo e Atrápalo ofereçam produtos úteis para despesas menores ou traslados dentro da Europa, o capital segurado é irrisório diante de um cenário de internação prolongada ou cirurgias de alta complexidade em mercados de saúde caros. A dependência de um seguro básico vendido no checkout de uma agência online cria uma falsa sensação de segurança que pode levar a um colapso financeiro pessoal em caso de sinistro grave.
A lógica dos incentivos no setor de viagens
O mecanismo por trás dessa oferta é a otimização de margem das agências de viagens. O seguro vendido no momento da compra online funciona mais como um acessório de baixo custo para aumentar o ticket médio do que como uma ferramenta robusta de gestão de risco. As agências operam com produtos de prateleira que visam atender à maioria dos casos de baixa gravidade, mantendo os prêmios baixos para não espantar o cliente no momento do pagamento.
Essa dinâmica cria um desalinhamento de incentivos onde o consumidor, focado na tarifa do voo ou do hotel, aceita uma proteção inadequada por falta de conhecimento técnico. A recomendação da OCU é que o viajante trate o seguro como um item de planejamento independente, preferindo apólices contratadas diretamente com seguradoras especializadas, que possuem expertise em regulação de sinistros globais e redes de atendimento mais extensas.
Implicações para o ecossistema e o consumidor
Para o mercado, o alerta da OCU expõe uma tensão crescente sobre a transparência no processo de venda digital. Reguladores de consumo em diversos países têm observado com cautela como as plataformas de intermediação utilizam algoritmos de recomendação para empurrar produtos financeiros que, embora legais, podem ser ineficazes para o usuário final. No Brasil, o cenário é semelhante, com plataformas de venda de passagens frequentemente oferecendo proteções que não cobrem as especificidades de sistemas de saúde privados de países como os Estados Unidos.
Além da contratação de seguros específicos, a entidade sugere uma revisão holística do patrimônio do viajante. Muitas vezes, seguros de vida, saúde, automóvel ou até mesmo as proteções oferecidas por cartões de crédito de alta renda possuem cláusulas de responsabilidade civil ou acidentes que podem ser acumuladas, reforçando a rede de segurança sem custos extras significativos.
O que observar daqui para frente
Permanece a dúvida sobre como as agências online reagirão a esse tipo de escrutínio público. É provável que, sob pressão, essas empresas busquem ajustar seus produtos ou, no mínimo, melhorar os avisos de isenção de responsabilidade durante o checkout. No entanto, a responsabilidade final permanece com o viajante, que deve tratar a proteção sanitária com o mesmo rigor que a escolha do destino.
O setor de viagens continua a ser um campo fértil para a venda de serviços financeiros agregados. A tendência é que a exigência por coberturas mais altas se torne um padrão de mercado à medida que o custo da assistência médica global continua a subir. O viajante deve estar atento, pois, no momento de uma emergência, a diferença entre uma cobertura de 150 mil e 1 milhão de euros pode ser a diferença entre a estabilidade financeira e a insolvência.
O debate sobre a transparência na venda de seguros digitais está apenas começando e deve ganhar tração conforme a regulação de plataformas online se torna mais rigorosa ao redor do mundo. A prudência na leitura dos contratos e a comparação de apólices continuam sendo as melhores defesas do consumidor contra as lacunas dos seguros de prateleira.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





