O Brasil atravessa um ciclo de instabilidade econômica sem precedentes, marcado por uma sucessão de sete choques inflacionários que moldaram o cotidiano do consumidor e a estratégia dos investidores nos últimos seis anos. Segundo análise de Clara Sodré, da XP, publicada no InfoMoney, a economia brasileira não enfrentou eventos isolados, mas uma corrente de crises conectadas que forçaram o Banco Central a manter uma postura defensiva na política monetária.
A sequência de choques começou com a pandemia de Covid-19, que paralisou cadeias produtivas globais e exigiu estímulos fiscais massivos, culminando na guerra na Ucrânia, que transformou insumos básicos em armas geopolíticas. Esse cenário, agravado por secas extremas e tensões fiscais domésticas, consolidou um ambiente de juros altos e incerteza cambial que define o presente do país.
O legado da liquidez e da ruptura logística
O marco inicial dessa instabilidade foi março de 2020, quando o fechamento global das economias obrigou governos a injetar cerca de US$ 5 trilhões apenas nos Estados Unidos para evitar um colapso. No Brasil, o contexto de emergência levou a Selic ao patamar histórico de 2% ao ano, uma medida que, embora necessária no curto prazo, revelou-se insustentável diante da rápida retomada do consumo pós-vacinação.
Quando a demanda superou a capacidade de oferta, o mundo enfrentou gargalos logísticos severos, com o frete internacional triplicando de valor e o combustível disparando quase 50% em 2021. Esse descompasso entre a oferta de bens e a liquidez injetada no mercado criou uma pressão inflacionária que o IPCA, fechando aquele ano em 10%, refletiu com clareza, forçando o início de um ciclo de aperto monetário que perdura até hoje.
Geopolítica como motor de preços
A invasão da Ucrânia em 2022 elevou o patamar das tensões, transformando energia e alimentos em variáveis de risco geopolítico direto. Com a Rússia e a Ucrânia como fornecedores cruciais de petróleo, gás e commodities agrícolas, a inflação global atingiu recordes, levando o Federal Reserve a subir os juros americanos de zero para 5% em tempo recorde, o que drenou liquidez de mercados emergentes como o Brasil.
Mais recentemente, o fechamento do estreito de Ormuz em 2026, rota de 20% do petróleo mundial, trouxe um novo componente de volatilidade. A interrupção do fluxo de energia pressionou as projeções da OCDE e forçou o Brasil a manter a Selic em 15%, demonstrando que a política monetária interna está cada vez mais atrelada a eventos que ocorrem fora das fronteiras nacionais.
Tensões fiscais e o fator climático
O mercado brasileiro adicionou camadas de incerteza a esse cenário global, especialmente a partir de 2023, com o ceticismo sobre a trajetória fiscal do governo. A desconfiança dos investidores sobre o equilíbrio das contas públicas impactou diretamente o real, encarecendo produtos importados e alimentando a inércia inflacionária, um processo que se tornou um choque silencioso de confiança.
Paralelamente, fenômenos climáticos como o El Niño causaram quebras de safra no Centro-Oeste e Sul, elevando preços de itens essenciais como café e carne. A combinação de fragilidade fiscal com choques de oferta agrícola criou um ambiente onde a inflação se tornou resiliente, exigindo do investidor uma estratégia de proteção baseada em ativos atrelados ao IPCA e diversificação geográfica.
O horizonte de incertezas
A convergência para a meta de inflação em 2025, impulsionada em parte por uma valorização cambial inesperada, trouxe um alívio temporário, mas não eliminou os riscos estruturais. O Brasil permanece vulnerável tanto às decisões tarifárias de potências globais quanto aos conflitos no Oriente Médio, que continuam a ditar os preços de energia.
O desafio para os próximos anos reside na capacidade do país de descolar sua trajetória interna das oscilações externas, reduzindo a dependência de fatores que o Banco Central não pode controlar. O cenário de juros altos, embora necessário para conter a inflação, impõe limites ao crescimento econômico e mantém o investidor em um estado de alerta permanente.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





