A indústria cimenteira espanhola ajustou suas expectativas de mercado para 2026, projetando um consumo de 17 milhões de toneladas, o que representa um crescimento de apenas 2% em relação ao ano anterior. Segundo dados divulgados pela Oficemen, a associação que representa os fabricantes do setor, o número reflete uma redução de um ponto percentual na estimativa inicial feita no início deste ano.

O presidente da entidade, Ricardo de Pablos, atribuiu a revisão à combinação de um cenário de incerteza política, tanto nacional quanto internacional, e a uma nítida desaceleração nos pedidos de licenciamento para novas construções habitacionais. O setor baseia suas projeções em um cenário que contempla cerca de 150 mil novas moradias licenciadas e um investimento em infraestrutura próximo aos 13 bilhões de euros.

O impacto da estagnação histórica

Embora o setor tenha registrado um crescimento de 7,1% no início de 2026, impulsionado por uma recuperação de atividades represadas pelas chuvas nos primeiros meses, os indicadores mensais mais recentes já sinalizaram uma leve queda de 0,3%. A expectativa da associação é que o ritmo de crescimento se modere significativamente ao longo do segundo semestre, à medida que a base de comparação se torna mais exigente em relação aos níveis de consumo observados na segunda metade de 2025.

De Pablos ressaltou que, apesar do crescimento projetado, o volume de 17 milhões de toneladas permanece muito abaixo do necessário para atender ao déficit habitacional do país, estimado em 750 mil unidades pelo Banco da Espanha. O patamar atual é comparável ao consumo registrado em 1985 e destoa da média histórica de 22 milhões de toneladas observada entre 1960 e 2025, evidenciando uma década de atividade muito aquém do potencial de desenvolvimento infraestrutural necessário.

Barreiras de custo e competitividade

Um dos pontos críticos levantados pela Oficemen refere-se à desvantagem competitiva gerada pelos custos energéticos. O setor estima um sobrecusto anual de até 90 milhões de euros em comparação com vizinhos europeus, uma vez que a Espanha mantém encargos e impostos sobre a eletricidade até quatro vezes superiores aos praticados na França ou na Alemanha. A entidade defende reformas estruturais que permitam uma redução de 10% a 30% na conta de energia para garantir a viabilidade das fábricas locais.

O alívio parcial veio com a recente decisão do Conselho de Ministros de eliminar progressivamente o imposto sobre o valor da produção de energia elétrica (IVPEE). Esta medida é vista como um passo essencial para mitigar a pressão sobre as margens operacionais, em um momento em que a indústria tenta se adaptar a um ambiente de custos regulatórios cada vez mais rigorosos e complexos.

O desafio das importações e regulação

A estrutura comercial do setor também sofreu alterações profundas na última década. Desde 2016, as exportações espanholas de cimento caíram 55%, atingindo cerca de 4,5 milhões de toneladas, enquanto as importações dispararam 2.800%, superando a marca de 2,5 milhões de toneladas no mesmo período. Mais de 90% desse volume importado origina-se do Egito e da Turquia, países que, segundo a Oficemen, operam com custos regulatórios e ambientais significativamente menores.

Para equilibrar essa assimetria, a indústria apoia firmemente o mecanismo de ajuste de carbono em fronteira (CBAM) implementado pela Comissão Europeia. O setor entende que a aplicação rigorosa deste mecanismo é fundamental para evitar a desindustrialização, garantindo que o cimento importado compita em igualdade de condições no que diz respeito às exigências de descarbonização e conformidade ambiental.

Perspectivas e incertezas

O futuro do setor permanece atrelado à capacidade da Espanha em destravar investimentos em infraestrutura e regularizar o ritmo de licenciamentos habitacionais. A volatilidade dos indicadores econômicos e a dependência de políticas públicas de longo prazo deixam pouca margem para otimismo acelerado, mantendo a indústria em um estado de monitoramento constante.

A eficácia do mecanismo de ajuste de carbono e a continuidade das reformas no custo da energia serão os principais vetores a observar. A capacidade da Espanha em retomar a média histórica de consumo de cimento dependerá, em última análise, da estabilidade do ambiente macroeconômico e da competitividade industrial frente aos mercados globais. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España