A prateleira de jogos em disco, antes um símbolo de posse e preservação, está se tornando uma ilusão. A ideia de que basta inserir a mídia no console para jogar está cada vez mais distante da realidade, transformando coleções em potenciais cemitérios digitais.

Segundo uma reportagem da Ars Technica, que se aprofunda em dados do projeto DoesItPlay, a dependência de downloads para que jogos físicos funcionem é alarmante. O debate ganha tração em um momento em que gigantes como a Sony sinalizam o fim da produção de jogos em disco, forçando uma reflexão sobre o que de fato significa "possuir" um jogo na era digital.

O disco como chave de acesso

Os números compilados pelo DoesItPlay, uma iniciativa que testa a funcionalidade de jogos físicos sem conexão à internet, são sóbrios. Cerca de 27% de todos os títulos testados exigem um download adicional para serem jogados, seja para corrigir falhas críticas ou para acessar conteúdo essencial que simplesmente não está no disco. O cenário é mais grave nos consoles da geração atual: o índice sobe para 34% no PlayStation 5 e atinge impressionantes 50% no Xbox Series X.

A prática virou padrão na indústria: para cumprir prazos de lançamento, os estúdios enviam uma versão "ouro" incompleta para a prensagem dos discos, enquanto continuam trabalhando em correções que serão distribuídas via internet no "patch de primeiro dia". Na prática, o disco deixa de ser o jogo em si para se tornar uma mera chave de autenticação, cujo valor depende da existência de servidores centralizados. Como resumiu Clemens Itsel, administrador do projeto, à Ars Technica, "há uma tendência clara de que os lançamentos físicos sejam tratados com ignorância pelas grandes empresas".

A questão que fica é de longo prazo. Daqui a 10 ou 15 anos, quando os servidores para PS5 e Xbox Series X forem descontinuados, o que acontecerá com essas mídias? A resposta provável é que uma parte significativa das bibliotecas físicas se tornará inútil. O futuro da preservação de games, antes garantido pelo plástico e pelo silício do cartucho e do disco, agora repousa sobre a incerteza da nuvem e das políticas corporativas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Ars Technica